Depois de tudo o que havia acontecido naquela noite, finalmente havia espaço para algumas explicações.
Leonardo mantivera a identidade de Leon Vargas escondida durante anos por razões que iam muito além do prazer pelo anonimato.
Depois do acidente de Eduardo, ele carregou a culpa por tudo o que aconteceu. Quando Eduardo acordou do coma com sequelas que o deixaram temporariamente paralisado, chegou a acusar o irmão de traição. Leonardo desapareceu sem conseguir provar sua inocência e, desde então, preferiu permanecer nas sombras.
O mundo dos hackers também não era um lugar seguro para alguém que não queria ser encontrado. Quanto menos soubessem sobre Leonardo Monteiro, mais protegido ele estaria e sua família, até conseguir reunir as provas necessárias para limpar seu nome.
O café já havia terminado, mas os três continuavam à mesa.
— Então, depois que voltei, mantive minha identidade em segredo. Leon Vargas iria desaparecer. Mas os ataques recentes não permitiram.
Leonardo olhou para Gabriella e Bernardo à sua frente. Já não havia sorriso ou qualquer brilho divertido em seus olhos.
— Acho que nem preciso dizer que não devem contar nada a ninguém.
Bernardo o encarou por alguns segundos. Agora começava a entender melhor o que Leonardo havia passado. Sabia o que acontecera com Eduardo e conhecia as consequências daquele período, mas nunca soubera todos os detalhes.
— É claro. Somos profissionais. — respondeu.
Leonardo assentiu.
Em seguida, voltou os olhos para Gabriella, que permanecia mais quieta do que de costume. Havia algo diferente nela desde que descobriram quem ele realmente era.
— Você ainda está chateada comigo.
Ela ergueu os olhos por um instante.
— Um pouco.
— Por eu ter escondido que sou Leon Vargas?
Gabriella hesitou.
— Não apenas por isso. Você sabia que eu estava tentando descobrir quem era você há anos. E mesmo assim continuou brincando comigo.
Leonardo perdeu o sorriso provocador.
— É verdade. Eu passei um pouco dos limites.
Bernardo cruzou os braços.
— Um pouco? — Bernardo bufou. — Você deve ter rido muito da nossa cara.
Leonardo ignorou a provocação.
— Gabriella, eu realmente quero me desculpar.
Ela pareceu surpresa com a sinceridade.
— Tudo bem.
— Não. Não está. — Ele sorriu de leve. — Por isso quero compensar.
Gabriella franziu a testa.
— Como?
— Jantando comigo.
Ela arregalou discretamente os olhos.
— Jantar… com você?
— Sim. Sem jogos, sem provocações e sem Leon Vargas. Apenas Leonardo.
Antes que Gabriella pudesse responder, Bernardo se inclinou para a frente.
— Ela não vai jantar com você.
Leonardo virou o rosto lentamente para Bernardo e ergueu a sobrancelha, o olhar tornando-se divertido de novo.
— E por que não?
— Porque não.
Gabriella olhou para Bernardo, surpresa.
— Bernardo...
— Você não precisa aceitar convite de um homem que passou anos enganando você.
Leonardo sorriu.
— Está com ciúmes?
— Não estou.
— Está parecendo.
— Eu só estou tentando proteger a Gabriella.
Gabriella ficou ainda mais vermelha.
— Eu sei me proteger sozinha.
Os dois homens se calaram, Leonardo olhou para ela e sorriu.
— Então a decisão é sua.
Gabriella respirou fundo, ainda tímida, mas dessa vez sustentou o olhar dele.
— Vou pensar.
Bernardo soltou um suspiro, claramente contrariado. Leonardo levantou-se e olhou para ele.
— E, Bernardo...
— O quê?
— Obrigado pela preocupação.
Sorriu de canto.
— Mesmo sabendo que é ciúme.
— Leonardo!
A risada de Leonardo ecoou pelo corredor enquanto ele se afastava. Gabriella abaixou os olhos, tentando esconder um sorriso e as faces vermelha.
Bernardo olhou para ela e aquilo, definitivamente, não ajudou em nada.

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