Poucos dias depois da partida da família Walker, chegou o dia que Eduardo aguardava com certa apreensão.
O julgamento de Angelina Santos.
O caso havia sido cuidadosamente mantido longe do conhecimento público. Não houve manchetes, repórteres diante do fórum ou câmeras transmitindo cada momento.
Poucas pessoas tinham conhecimento dos detalhes.
Naquela manhã, além de Eduardo e Leonardo, apenas alguns estudantes de Direito ocupavam os lugares destinados ao público. Observavam em silêncio, atentos à condução do processo e à complexidade de um caso que, apesar de grave, havia passado despercebido pela imprensa.
Eduardo estava sentado ao lado de Leonardo, os dois permaneciam em silêncio.
Quando as portas se abriram, Angelina entrou acompanhada pelos agentes penitenciários.
Eduardo quase não a reconheceu.
Os cabelos estavam descuidados, o rosto mais magro, a pele sem o cuidado que antes fazia parte de sua aparência impecável. Havia olheiras profundas sob os olhos e uma expressão abatida que a tornava muito diferente da mulher que um dia conhecera.
Quando levantou os olhos viu Eduardo e Leonardo. Os dois a encaravam com semblantes frio. Angelina desviou o olhar, não imaginara que eles iriam aparecer, não queria que a vissem assim, totalmente destruída.
O julgamento começou.
Foram apresentados os documentos, os depoimentos e as provas reunidas durante a investigação. As acusações foram reafirmadas diante do tribunal, e a defesa tentou argumentar em seu favor, mas as evidências eram numerosas demais.
Eduardo e Leonardo ouviam tudo em silêncio, nenhum dos dois demonstrava qualquer tipo de reação. Apenas esperavam.
Até que chegou o momento da sentença.
O juiz consultou os documentos sobre a mesa antes de erguer os olhos.
— Considerando o conjunto probatório apresentado, a gravidade dos delitos cometidos, a extensão dos danos provocados e as demais circunstâncias analisadas neste processo, este juízo julga procedentes as acusações formuladas contra a ré, Angelina Santos.
Ela permaneceu imóvel.
— Em consequência, condeno a ré à pena de dezoito anos de reclusão, em regime inicialmente fechado, sem prejuízo das demais determinações legais decorrentes da sentença.
Angelina fechou os olhos e o peso da sentença parecia esmagá-la.
Dezoito anos.
A sentença pareceu finalmente tornar real aquilo que até então ainda conseguia negar. Quando abriu os olhos novamente, procurou Eduardo.
Ele e Leonardo já estavam se levantando.
Angelina acompanhou os dois com o olhar, Eduardo saiu sem olhar para trás, assim como Leonardo.
As portas do tribunal se fecharam atrás dos dois. Angelina permaneceu sentada por alguns segundos, olhando para o lugar vazio onde Eduardo estivera.
— Vamos — ordenou um dos agentes.
Ela se levantou e sem forças para resistir, foi conduzida para fora da sala. Não havia restado mais nada, apenas o som dos próprios passos acompanhando-a para o destino que ela mesma havia construído.
*****
O movimento na Galeria Bellart era intenso.
Entre convidados, colecionadores e apreciadores de arte, havia uma expectativa especial em torno da exposição de uma jovem artista que acabara de receber o reconhecimento de Augusto Valença, um dos galeristas mais respeitados do país.
As pessoas percorriam o salão lentamente, parando diante das obras, algumas em silêncio, outras trocando impressões em voz baixa.
— Essa daqui é impressionante.
Um homem permaneceu diante de Entre a Luz e a Sombra, observando por alguns segundos a figura masculina de costas, banhada pela luz, enquanto uma mulher permanecia na penumbra, estendendo a mão em sua direção.
— Parece que ela está tentando alcançar alguém que já decidiu partir — comentou a mulher ao seu lado.
— Ou alguém que está perto, mas continua distante.

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