Por um instante, algo incômodo apertou seu peito. Não era apenas ciúme, era a constatação de que Bruno estava olhando para outra mulher de uma maneira que ela jamais havia conseguido provocar nele.
— Esse quadro... — comentou um homem que se colocou ao lado de Bruno. — O perfil desse homem parece muito com o seu.
A observação fez Bruno desviar a atenção dos dois. O homem percebeu o olhar intrigado de Bruno.
— Eu estava olhando a obra de longe. As costas dele são muito parecidas com as suas. É quase como se o senhor tivesse servido de modelo.. — Explicou o homem.
Bruno sorriu e olhou para a tela atentamente, era Entre a Luz e a Sombra, ele já tinha tido essa sensação de que aquele homem na pintura lhe parecia familiar quando vira o quadro pela primeira vez.
— É um belíssimo quadro — respondeu apenas.
— É mesmo. Eu gostaria de comprá-lo, mas Augusto me disse que já foi vendido para um grande empresário. Uma pena.
Bruno apenas sorriu.
— Realmente é uma pena.
O homem se afastou para observar outros quadros.
Patrícia permaneceu diante da tela e observou, mas não enxergava a beleza que todos pareciam encontrar ali.
Enxergava apenas Bianca, por isso olhava para a tela com visível desprezo ou melhor inveja.
— Não vejo nada demais nesses quadros. Para mim, são todos iguais.
Bruno não respondeu. Apenas lançou-lhe um olhar gélido, que a fez congelar e se arrepender no mesmo instante. Patrícia sentiu um arrepio percorrer o corpo.
Ele não precisava dizer nada, aquele olhar dizia tudo. Bruno se afastou, deixando-a sozinha diante da tela.
Patrícia acompanhou-o com os olhos até que desaparecesse entre os convidados. Só então voltou a encarar o quadro.
A inveja que sentira momentos antes começava a dar lugar a uma percepção ainda mais incômoda.
Ela conhecia Bruno desde a infância.
Conhecia seu jeito tranquilo, sua educação impecável e aquela serenidade que fazia as pessoas acreditarem que nada era capaz de tirá-lo do equilíbrio.
Até mesmo o relacionamento que haviam tido parecera, para quem os observava de fora, muito mais intenso do que realmente fora. Bruno sempre fora carinhoso e atencioso com ela, mas Patrícia sabia que aquilo fazia parte de sua personalidade. Na verdade, ele era um homem de temperamento frio e distante sob um semblante sereno e tranquilo.
Ele nunca havia se entregado de verdade.
Bruno não era homem de muitos relacionamentos. E, quando estavam juntos, ela jamais precisara disputar sua atenção com outra mulher porque, no fundo, sabia que ele não se deixava envolver facilmente.
Mas também conhecia o outro lado dele.
A firmeza, a determinação e a maneira silenciosa como estabelecia seus limites. Ninguém o manipulava, ninguém era capaz de exercer poder sobre suas decisões.
Nem mesmo ela quando namoraram.
E Patrícia conhecia aquele olhar. Já o havia visto poucas vezes ao longo dos anos. Era o olhar que Bruno lançava quando alguém ultrapassava uma fronteira que ele considerava inegociável.
Só que, naquela noite, havia algo diferente. Ele não havia apenas se irritado com suas palavras, havia se decepcionado.
E a razão estava diante dela.
Bianca.
E foi justamente isso que tornou a constatação ainda mais difícil de aceitar.
Patrícia percebeu que havia uma mulher capaz de despertar em Bruno algo que ela, apesar de conhecê-lo desde criança e de ter ocupado um lugar importante em sua vida, jamais conseguira alcançar.
Ela mordeu discretamente o lábio inferior.
— Droga...

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