Eduardo caminhava entre os convidados, mas mal percebia as pessoas ao redor. Alguns ainda tentaram abordá-lo para cumprimentá-lo ou comentar o sucesso recente do Grupo Monteiro, porém seu semblante fechado e a expressão impenetrável desencorajavam qualquer tentativa de prolongar a conversa.
Bruno o viu e imediatamente percebeu que havia algo errado.
Nas últimas semanas, o amigo vinha demonstrando mudanças que não passavam despercebidas. Estava menos distante, mais acessível, e até mesmo sua expressão parecia ter perdido parte daquela frieza habitual. Naquela noite, porém, parecia ter retornado ao homem de antes, talvez ainda mais perturbado.
Bruno olhou ao redor. Vira Eduardo chegar acompanhado de Helena, mas ainda não tivera oportunidade de se aproximar dos dois. Agora, contudo, ele não a via em lugar algum.
Decidiu aproximar-se de Eduardo.
— Eduardo, aconteceu alguma coisa?
O amigo ergueu os olhos. O olhar gélido foi suficiente para fazê-lo perceber que a pergunta não seria bem recebida.
— Estou ótimo.
A tensão em sua voz contradizia as palavras e Bruno o conhecia bem demais para acreditar naquela resposta.
— Onde está Helena?
A expressão de Eduardo endureceu.
— Não me pergunte sobre ela.
Antes que Bruno pudesse dizer qualquer outra coisa, Eduardo se afastou, deixando o amigo intrigado.
Minutos depois, Bruno finalmente avistou Helena e seguiu em sua direção.
Ela estava próxima a uma das salas laterais. Ao chegar perto, percebeu seu semblante abatido e o sorriso que lhe ofereceu ao perceber sua aproximação não conseguiu chegar aos olhos.
— Helena, você está bem? — perguntou, genuinamente preocupado.
Ela desviou os olhos por um instante antes de responder.
— Estou, sim. Foi apenas um mal-estar súbito. — Só então ergueu o rosto e tentou sorrir. — Você viu o Eduardo?
Bruno não respondeu de imediato. A reação de Eduardo pouco antes ainda lhe parecia estranha, e agora Helena também não parecia estar em seu estado habitual.
Bruno estudou sua expressão por alguns segundos.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês?
— Não. Claro que não.
Ele não insistiu, mas sua preocupação aumentou.
— Helena, eu a admiro muito. E quero que saiba que, se estiver passando por alguma dificuldade, pode contar comigo.
Ela ergueu os olhos para Bruno.
Havia algo diferente no tom de Bruno e seus olhos se encontraram. Sua gentileza continuava a mesma, mas, por um breve instante, ela percebeu um brilho mais intenso naqueles olhos claros, como se ele desejasse dizer algo além do que as palavras permitiam.
— Se precisar de um amigo, estarei aqui. Seja o que for, farei o que estiver ao meu alcance para ajudá-la.
Helena sentiu a garganta apertar. A conversa com Danilo a havia abalado muito mais do que gostaria de admitir, e aquela demonstração de carinho, tão sincera e inesperada, quase fez sua serenidade vacilar.
— Obrigada, Bruno. Você é sempre tão gentil comigo.
Ele lhe ofereceu um sorriso discreto.
— Não precisa me agradecer.
— Espero não estar interrompendo.
A voz de Eduardo surgiu atrás deles, fria e cortante.
Helena se virou imediatamente.
O homem que se aproximava não era o mesmo com quem chegara à galeria, havia algo profundamente diferente nele. Seus olhos, que nas últimas semanas haviam se tornado mais suaves quando pousavam sobre ela, pareciam agora duas placas de gelo.
Um arrepio percorreu sua nuca.
Bruno, por sua vez, manteve a sua postura serena e tranquila.
— Claro que não. Helena e eu estávamos apenas conversando.
— Percebi.
O olhar que Eduardo lançou ao amigo teria intimidado a maioria das pessoas. Bruno, contudo, sustentou-o sem se alterar com o mesmo semblante tranquilo e sereno.

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