Na manhã seguinte, Eduardo chegou à empresa dirigindo seu carro esportivo. Ao descer, ajeitou os punhos do paletó com um movimento preciso, enquanto o manobrista se aproximava rapidamente.
— Bom dia, senhor Monteiro.
Eduardo entregou-lhe a chave sem sequer olhar para o homem, que trabalhava ali havia mais de quinze anos. Acostumado ao semblante frio e distante do presidente do Grupo Monteiro, o funcionário raramente se deixava intimidar por sua presença. Naquela manhã, porém, bastou um breve olhar para sentir um calafrio. Eduardo parecia ainda mais inacessível, como um iceberg prestes a congelar tudo ao redor.
Ao entrar no prédio, encontrou alguns funcionários e visitantes espalhados pelo saguão. Assim que perceberam sua chegada, alguns mudaram discretamente de direção, preferindo evitar um encontro com o presidente. Os que não conseguiram escapar limitaram-se a murmurar um cumprimento.
Eduardo não respondeu. Na verdade, parecia sequer notar a presença deles.
Seguiu diretamente para o elevador exclusivo e, assim que as portas se fecharam, as recepcionistas trocaram olhares antes de soltarem o ar que pareciam estar prendendo.
Uma delas pegou o telefone e ligou para a presidência.
— O senhor Monteiro acabou de chegar.
Fez uma breve pausa, acompanhando com os olhos as portas fechadas do elevador.
— E hoje parece estar com um humor péssimo.
Desligou antes que a colega pudesse responder.
Do outro lado da linha, Márcia acabara de pousar o telefone sobre a mesa. De sua sala envidraçada, observou os funcionários daquele andar se apressarem para ocupar seus postos.
Ela voltou à mesa e se concentrou no trabalho. Revisando a agenda do chefe para aquele dia.
Pouco depois, o elevador abriu.
Márcia ergueu a cabeça, pronta para desejar um bom dia ao chefe com seu habitual sorriso profissional. No entanto, ao vê-lo, o sorriso morreu antes mesmo de se formar por completo.
— Bom dia, senhor Monteiro — murmurou.
Eduardo passou por ela sem responder.
Márcia permaneceu imóvel por um instante. Em todos os anos em que trabalhava ao lado dele, não se lembrava de uma única ocasião em que tivesse sido completamente ignorada daquela maneira.
Mas não foi apenas o silêncio que chamou sua atenção.
O semblante continuava sombrio, porém, por trás da expressão severa, ela percebeu sinais de abatimento. As olheiras marcadas denunciavam uma noite mal dormida, e a rigidez de seus movimentos parecia esconder uma tensão que nem mesmo ele conseguia disfarçar por completo.
Márcia franziu ligeiramente a testa.
O que será que aconteceu?
Nos últimos dias, Eduardo Monteiro vinha chegando ao escritório com um bom humor incomum, quase desconcertante para quem estava acostumado à sua habitual frieza. Agora, porém, parecia ter voltado ainda mais fechado do que antes.
*****
Helena também chegou à empresa diferente naquela manhã.
Ao passar pela mesa de Ana, desejou-lhe um bom dia, mas, ao contrário do que costumava fazer, evitou encontrar os olhos da secretária. Seguiu diretamente para o escritório, tentando manter a expressão serena, embora por dentro estivesse longe de conseguir a mesma tranquilidade.
Assim que se sentou, abriu os documentos que precisava analisar e tentou concentrar-se no trabalho. Não adiantou.
As lembranças da noite anterior voltavam sem aviso, interrompendo seus pensamentos e fazendo-a perder o entendimento da leitura. Helena fechou os olhos por um instante, buscando afastar aquelas imagens.
Ainda não conseguia compreender o que havia acontecido. O homem que, nos últimos dias, lhe dera motivos para acreditar que havia algo mais entre eles parecia ter desaparecido, dando lugar a alguém que ela mal reconhecia. E, por mais que tentasse encontrar uma explicação, não conseguia apagar o medo que sentira diante dele.
Naquele dia, Bianca não iria ao escritório. Passaria o dia na galeria do senhor Augusto Valença . No fundo, Helena agradeceu a Deus por isso. Amava a prima e queria vê-la feliz com suas conquistas, mas, naquele momento, não teria forças para compartilhar de sua alegria como gostaria. Mal conseguia organizar os próprios sentimentos.


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