O restante do dia transcorreu quase todo dentro da casa principal.
A chuva chegou a dar uma trégua e, por algum tempo, um sol tímido apareceu entre as nuvens, iluminando os jardins encharcados da chácara. Mas a calmaria durou pouco. No meio da tarde, o céu voltou a escurecer e a chuva retornou, fina e persistente.
Felizmente, o sinal de internet não havia sido interrompido.
Helena aproveitou para avisar Clara de que não conseguiria retornar naquele dia nem comparecer à empresa. Também trocou mensagens com Amanda e Cláudia, e as três combinaram de almoçar juntas assim que ela voltasse.
Depois, conversou um pouco com Laura e descobriu que ela e Bernardo estavam avançando em uma parceria envolvendo tecnologia e inteligência artificial.
Enquanto Helena permanecia distraída olhando o celular, Olívia e Carmen tricotavam sentadas no sofá, e do outro lado da sala Gilberto e Eduardo jogavam xadrez em silêncio.
O ambiente tinha uma tranquilidade e foi então que Carmen ergueu os olhos e chamou animadamente:
— Helena, querida.
Helena levantou a cabeça imediatamente. Com um sorriso orgulhoso, Carmen ergueu o que estava fazendo.
Era um pequeno par de sapatinhos de bebê em lã amarelo-claro, delicadamente trabalhados à mão.
— O que acha? — perguntou ela radiante. — É para meu bisneto… ou bisneta.
Por um instante, Helena ficou completamente sem reação. O sorriso alegre de Carmen, os sapatinhos minúsculos e a naturalidade daquela expectativa.
Ela sentiu o sangue fugir do rosto. Instintivamente, seus olhos buscaram Eduardo. Ele também havia erguido a cabeça, mas sua expressão era indecifrável.
Os olhos escuros permaneceram imóveis sobre os sapatinhos por alguns segundos antes de se voltarem lentamente para Helena.
— É… muito bonito. — respondeu ela por fim, a voz saindo baixa e vacilante.
— E eu estou fazendo o casaquinho. — comentou Olívia animada, mostrando a pequena peça ainda pela metade. — Mamãe já começou a planejar tudo.
Carmen sorriu satisfeita.
— Claro. Quero aproveitar meus bisnetos enquanto ainda tenho energia.
Então ela percebeu o silêncio incomum de Eduardo.
— Eduardo, por que está olhando com essa cara?
Gilberto ergueu os olhos discretamente do tabuleiro.
Eduardo permaneceu alguns segundos em silêncio antes de apoiar calmamente uma peça no tabuleiro.
— Porque a senhora já está planejando algo que nem sabemos se vai acontecer tão cedo.
— E desde quando isso impede uma avó? — rebateu Carmen imediatamente. — Além disso, vocês dois formam um casal tão bonito… os filhos de vocês vão ser lindos.
Eduardo recostou-se lentamente na cadeira.
— A senhora está se precipitando.
O tom dele era controlado, frio até demais.
Carmen pareceu não perceber ou talvez tenha fingido não perceber.
— Isso é o que todos os homens dizem antes de virarem pai. — respondeu ela divertida. — Depois ficam bobos carregando a criança no colo.
Olívia riu baixinho, satisfeita, mas Helena já não conseguia sorrir. Aqueles planos, naquele instante, ela percebeu algo doloroso.
Enquanto Carmen falava de futuro com tanto carinho… ela e Eduardo continuavam presos a um casamento que talvez nunca se tornasse real.
*****
Naquela noite, não havia muito para fazer além de se recolherem cedo.
A chuva continuava fina do lado de fora, e o som constante das gotas contra o telhado deixava o ambiente ainda mais silencioso e íntimo.
Para evitar qualquer constrangimento, Eduardo decidiu ocupar a mente com trabalho.
Aproveitou a escrivaninha próxima à janela e, depois de dizer que não conseguiria voltar para a empresa tão cedo por causa da estrada, abriu o notebook e mergulhou em relatórios e mensagens.

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