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Quadros de um divórcio romance Capítulo 235

“A liberdade é o quadro mais caro que uma mulher pode pintar.” L. Vale

A pergunta de Renato continuava reverberando dentro da mente de Cássio.

“Por que Silvia faria aquilo?”

E se ela fora capaz de algo assim diante dele… do que não seria capaz longe de seus olhos?

Renato percebeu o silêncio denso que se instalara e aproveitou a brecha.

— Você realmente conhece essa mulher?

Cássio demorou a responder, os olhos perdidos no copo quase vazio.

— Eu não sei… — admitiu, por fim. — Quanto mais tempo passo com ela, mais parece que não.

Renato inclinou-se um pouco em sua direção.

— Você sabe que não precisa se casar com ela, não é? Só precisa garantir que ela e a criança tenham uma vida confortável.

Cássio permaneceu imóvel por um longo momento.

Pensou na própria infância fria, na educação rígida, na pressão constante dos pais pela imagem perfeita. Pensou no desejo quase obsessivo de ser um pai melhor do que o homem que o criara. Pensou também nos escândalos que abalaram sua reputação — o fim do casamento, o caso com Silvia, a crise na empresa, as disputas pelas coleções.

Aquele casamento poderia funcionar como redenção pública. Uma tentativa de reorganizar o caos, de reconstruir a imagem de homem responsável, de alguém que assumia seus erros.

Além disso, a cerimônia estava marcada para o dia seguinte. Cancelar tudo às pressas seria combustível puro para um novo escândalo.

E havia ainda o motivo mais doloroso. O único que realmente poderia fazê-lo desistir.

Helena.

Mas Helena já não fazia mais parte de sua vida. Ela havia seguido em frente — e, aparentemente, muito bem.

O celular de Renato vibrou sobre o balcão, quebrando o silêncio justamente para reforçar aquela realidade. Ele pegou o aparelho, vendo o nome de Tânia na tela. Ao abrir a mensagem, encontrou apenas um link.

Clicou.

A matéria se abriu imediatamente, exibindo a fotografia de Helena e Santiago sob a luz dourada da galeria.

O brilho da tela chamou a atenção de Cássio, que ergueu o olhar quase por reflexo — mas o que começou como um gesto distraído transformou-se em contemplação silenciosa.

Renato tentou desligar a tela para não inflamar o sofrimento do amigo, mas Cássio foi mais rápido, pegando o celular de sua mão.

Leu a matéria em silêncio, absorvendo cada palavra como um golpe lento. Quando chegou à fotografia, demorou-se nela.

Algo apertou em seu peito.

Não era apenas ciúme. Era a consciência brutal do que havia perdido.

Depois de alguns segundos, devolveu o aparelho ao amigo.

— É tarde demais para voltar atrás.

A frase saiu baixa, definitiva, sem dramatização — como uma sentença já aceita.

...

O sinal suave do elevador ecoou pela cobertura do prédio de sete andares, anunciando a chegada. Pedro e Marcelo já haviam descido um nível abaixo, acomodando-se estrategicamente em um apartamento menor alugado e já mobiliado.

Helena já estivera ali antes, acompanhando Santiago quando ele passara rapidamente para buscar alguns ternos. Mas agora era diferente. Por um tempo ainda indefinido, aquele seria o lugar onde viveriam.

As portas do elevador se abriram com um deslizar silencioso, revelando um hall privativo iluminado por luz indireta e quente. Santiago colocou a mão nas costas dela, guiando-a com suavidade até a porta principal. Quando a abriu, um espaço amplo e elegante se desdobrou diante deles.

O apartamento era grande, mas não ostentava frieza. Pelo contrário — cada detalhe parecia pensado para equilibrar sofisticação e acolhimento.

A sala principal integrava-se a um amplo living, onde um sofá generoso em tons neutros convidava ao descanso, repleto de almofadas macias e mantas dobradas com descuido calculado. Um tapete espesso amortecia os passos, aquecendo o piso de madeira clara que se estendia por todo o ambiente.

Luminárias de design discreto espalhavam uma luz suave e dourada, criando zonas de intimidade em vez de uma iluminação uniforme. Sobre uma mesa lateral, um arranjo de flores frescas perfumava o ar com notas delicadas, misturadas ao aroma sutil de madeira e café.

Grandes janelas ocupavam quase toda a extensão da parede oposta, revelando a cidade iluminada lá embaixo — um mar de pontos brilhantes que pulsava em silêncio. Cortinas leves, em tecido translúcido, ondulavam discretamente com o ar-condicionado, suavizando a vista urbana e trazendo uma sensação inesperada de calma.

Mais adiante, uma estante alta abrigava livros, objetos pessoais e algumas peças de arte cuidadosamente escolhidas — não como itens de exibição, mas como fragmentos de uma vida real. Havia fotografias discretas, lembranças de viagens, pequenos detalhes que denunciavam que aquele não era apenas um espaço bonito… era habitado.

Mabe surgiu correndo de um dos cômodos, saltitando pelo apartamento com evidente entusiasmo ao vê-los chegar. Helena se abaixou imediatamente para acariciar sua cabeça, rindo baixinho diante da recepção afetuosa. Quando se ergueu novamente, levantou os olhos e encontrou o olhar de Santiago.

— Parece que alguém andou fazendo algumas alterações por aqui — acusou ela, divertida, deixando o olhar passear pelos detalhes novos.

Santiago sorriu, quase tímido.

— Não queria que parecesse um hotel. Antes, eu mal ficava aqui, mas agora... queria que tivesse mais cara de lar.

Mesmo o conhecendo tão bem, Helena ainda se comovia com esses gestos silenciosos, cuidadosamente pensados para fazê-la se sentir acolhida. Havia algo profundamente íntimo em perceber que ele moldara o próprio espaço pensando nela.

— Venha… quero mostrar seu estúdio improvisado — disse Santiago, já entrelaçando os dedos aos dela e conduzindo-a pelo corredor.

Pararam diante de uma porta entreaberta.

— Só uma coisa… — acrescentou, erguendo as mãos em rendição antes que ela entrasse. — Juro que não espiei suas telas.

Helena soltou uma pequena risada, mas seu coração acelerou levemente.

Quando cruzou o limiar, ficou imóvel.

O cômodo era claramente um dos antigos quartos, mas havia sido transformado com uma sensibilidade surpreendente. As paredes brancas ampliavam a luminosidade suave que entrava pelas janelas, criando um espaço limpo, silencioso, quase reverente — como se fosse feito para abrigar ideias antes mesmo de abrigar pessoas.

Ao longo de uma das paredes, prateleiras de gesso surgiam como extensões naturais da própria estrutura, sustentando suas telas já finalizadas, cuidadosamente cobertas por panos leves. Pareciam adormecidas, aguardando o momento de verem à luz.

Seu cavalete de madeira ocupava o centro do ambiente, sólido e simples, com a superfície marcada por manchas antigas de tinta — um detalhe que dava vida ao espaço, como se aquele lugar já tivesse história antes mesmo de ser usado. Próximo a um aparador lateral, tubos de tinta, pincéis e solventes estavam organizados com cuidado, prontos para o uso, mas sem a rigidez de uma arrumação impessoal.

Em um canto, um sofá profundo e confortável convidava ao descanso, envolto por uma manta macia, como se alguém tivesse imaginado as longas pausas entre uma pincelada e outra.

Cortinas brancas e leves ondulavam suavemente, ocultando parcialmente uma grande porta de vidro. Ao afastá-las, revelava-se uma sacada ampla — quase um jardim suspenso. Vasos de diferentes tamanhos tomavam o espaço, repletos de plantas exuberantes, folhas largas e verdes que contrastavam com o concreto da cidade ao redor.

Duas poltronas reclináveis, mais próximas de espreguiçadeiras elegantes, estavam posicionadas diante da vista, convidando à contemplação. Lá embaixo, a cidade se estendia imponente, um oceano de luzes e movimento — distante o suficiente para parecer silencioso.

A sacada ainda se conectava ao quarto ao lado, o qual ocupariam enquanto permanecessem ali.

Helena avançou devagar, os olhos percorrendo cada detalhe como se tentasse absorver tudo ao mesmo tempo. Levou a mão à boca por um instante, incapaz de esconder a emoção.

Não era apenas um espaço de trabalho. Era um lugar pensado para ela existir.

Estava no meio das plantas da sacada quando ela virou-se para ele, os olhos brilhando, uma mistura de gratidão e algo mais profundo.

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