POV LIANNA
Eu estava em casa quando o telefone tocou.
Número do hospital. Ignorei. Suspensa. Oficialmente afastada. Invisível. O telefone tocou de novo. E de novo.
Atendi na quarta chamada.
— Lianna… — a voz do diretor veio quebrada, engolindo o orgulho. — Nós precisamos de você. Agora.
Fechei os olhos.
— Estou suspensa.
— Eu sei. — silêncio curto, pesado. — Mas ninguém mais sabe fazer esse procedimento. Não com essa variação anatômica. Não sem risco altíssimo de óbito.
Meu coração acelerou.
— Quem é o paciente?
— Jovem. Trinta e dois anos. Trauma abdominal grave. Hemorragia interna extensa. Já tentamos estabilizar. Está piorando.
Respirei fundo.
A médica em mim venceu antes da mulher ferida.
— Estou a caminho.
***
O centro cirúrgico parecia um organismo vivo quando cheguei. Todos me olhavam como se eu fosse uma resposta tardia.
Vesti o avental em silêncio. Lavei as mãos com uma concentração quase ritualística. Cada movimento era automático, mas dentro de mim tudo ardia.
— Tempo estimado? — perguntei.
— O quanto for necessário. — respondeu a anestesista. — Ele está indo embora.
— Então não vai. — eu disse, firme. — Não hoje.
Abri o abdômen com precisão. Sangue. Muito sangue. O tipo de cenário que separa bons médicos de médicos excepcionais.
Minhas mãos não tremiam. Nunca tremiam. Foram sete horas. Sete horas de decisões no limite. Sete horas de suturas minuciosas. Sete horas lutando contra o relógio e contra a morte.
O corpo do paciente reagia. Resistia. Queria ficar.
Quando finalmente dei o último ponto, minhas costas queimavam, meus ombros gritavam, minhas pernas ameaçavam ceder.
— Encaminhar para a UTI. — anunciei. — Monitoramento contínuo. Ele vai sobreviver.
O silêncio durou dois segundos. Depois, o suspiro coletivo.
Tirei as luvas. Minhas mãos estavam vermelhas. Não de sangue, de esforço. Saí da sala como se estivesse atravessando água.
O corredor parecia longo demais. Foi ali que minhas forças acabaram.
Encostei na parede, deslizei devagar até quase sentar. Minha visão embaçou.
— Ei… — uma voz conhecida.
Adrian.
Ele estava ali, encostado do outro lado do corredor, como se tivesse sentido que eu precisaria dele.
— Você não devia estar aqui. — murmurei.
— Nem você. — ele respondeu, aproximando-se. — Mas salvou uma vida.
Ele me segurou pelos cotovelos quando minhas pernas falharam.
— Sete horas, Lia. — disse baixo. — Você é absurda.
Soltei uma risada cansada, quase um soluço.
— Estou morta.
— Eu te levo pra casa.
— Não… — balancei a cabeça. — Só… fica aqui um minuto.
Ele me encostou de leve contra o peito dele. Um gesto simples. Mas naquele momento, foi tudo.
— Ele está vivo por sua causa. — Adrian sussurrou. — E eles sabem disso.

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