POV Lianna
A casa dormia.
E eu… eu não sabia como fazer o mesmo.
O corredor estava mergulhado em penumbra. O silêncio era tão espesso que parecia tecido, quase dava pra tocar. Caminhei devagar até a cozinha, tentando não fazer o piso estalar, como se meus passos pudessem acordar o cansaço que eu lutava pra manter adormecido.
Abri a geladeira, e a luz branca me cegou por um segundo. Entre recipientes de comida e garrafinhas de água, lá estava: o vinho branco que Valentina trouxe na última visita.
“Pra emergências emocionais”, ela disse.
Eu ri na época. Hoje… talvez ela soubesse mais da minha vida do que eu mesma.
Peguei a garrafa, servi uma taça. O som do líquido preenchendo o vidro quebrou o silêncio com uma delicadeza quase dolorosa. A cozinha iluminada apenas pela lâmpada amarela parecia cenário de um filme lento, desses que só passam de madrugada e ninguém vê.
Encostei no balcão e deixei o corpo desabar contra a madeira, sentindo o peso de tudo, do jaleco que ainda estava pendurado no carro, da cirurgia, da convulsão, do olhar desesperado de Zayden, do rosto pálido de Camille… da minha própria alma pedindo descanso como quem implora por ar.
Levei a taça aos lábios.
O vinho desceu quente, calmo, gentil. Por um segundo eu quase chorei só por sentir algo suave depois de um dia que só teve bordas afiadas.
Fechei os olhos.
E tudo voltou como um filme cruel: Camille tremendo na maca. Os alarmes disparando. A pressão despencando. A enfermeira chamando meu nome com a voz quebrada. E Zayden… correndo pra dentro da sala, o rosto mais branco do que eu lembrava capaz.
Eu salvei a amante do meu marido. A mulher que partiu minha vida no meio. Minha meia-irmã.
E o sermão moral que sempre me ensinaram ecoava na minha mente: “Você é médica. Salve. Sempre.”
Mas meu coração… O meu coração queria abandonar aquela sala e deixar o destino escolher por mim.
Senti a garganta arder.
Estava cansada de ser a pessoa certa em um mundo cheio de pessoas erradas.
Levei a taça para o sofá. Sentei devagar, puxei os joelhos contra o peito e deixei a cabeça cair pra trás, encarando o teto como se ele tivesse respostas.
A casa estava tão silenciosa que eu conseguia ouvir o meu próprio coração, não batendo, mas reclamando. Uma dor quieta, uma pontada insistente, como se ele tivesse levado pancadas o dia todo e só agora tivesse permissão pra sentir.
Passei a mão pelo rosto, massageando as têmporas.
Eu precisava respirar. Ou fugir. Ou desaparecer por algumas horas. Qualquer coisa que não envolvesse hospital, bisturi, dor, lembranças, escândalos, manchetes, e principalmente, Zayden.
Meus olhos caíram sobre a foto dos gêmeos na estante.
Selena lambuzada de sorvete. Selin com a camisa manchada de tinta. Os dois sorrindo como se o mundo fosse simples.
Aquilo me atingiu mais forte do que qualquer notícia.
Eles precisavam de mim. Mas não da versão que sobrou depois de um plantão de catorze horas e uma guerra emocional. Eles precisavam daquela mãe que fazia panquecas no sábado, que dançava música brega na sala, que ria alto… que vivia.
E eu… eu estava virando apenas um corpo funcional dentro de um jaleco.
Peguei o celular da mesa. A tela acendeu, me dando um susto leve.
Fotos dos gêmeos. Mensagens não lidas do jurídico. Emails do hospital. Notificações da imprensa.
Tudo tentando me puxar para o mesmo buraco que suga minha paz desde que ele voltou.
Mas aí… algo diferente surgiu na tela.
Meus filhos precisavam que fosse.
E, no fundo mais escondido, a parte de mim que ainda insistia em viver… precisava tanto quanto eles.
Deixei a taça na pia e apaguei a luz da cozinha. A casa ficou escura, mas pela primeira vez a escuridão não me assustou. Caminhei até a varanda e abri a porta devagar.
O ar da madrugada era frio, cortante, mas bom.
Me acordou sem me machucar.
Encostei no parapeito e olhei para as luzes da cidade.
Genebra parecia tão calma dali de fora, tão organizada… tão diferente das tempestades que eu carregava por dentro.
Fechei os olhos e deixei o vento bater no rosto.
Amanhã, eu decidi, seria nosso: Eu. Selin. Selena.
Amanda.
Sem hospital. Sem bisturis. Sem manchetes. Sem Zayden.
E enquanto respirava fundo, senti, pela primeira vez em semanas, uma pontinha de esperança surgir, tímida, como quem b**e na porta com medo de entrar.
Talvez eu estivesse renascendo, lentamente. Sem alarde. Sem espetáculo. Do jeito que as mulheres fortes renascem: em silêncio.
Voltei para dentro, fechei a porta com cuidado e caminhei até meu quarto. Tomei um banho rápido, troquei de roupa, deitei na cama, mas não dormi de imediato.
Fiquei olhando o teto. Ouvindo o silêncio. E pensando no amanhã.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!