POV LIANNA
O silêncio na sala era quente.
Quente de um jeito que queimava a pele.
Pesado como se tivesse peso próprio, ocupando o ar entre mim e Adrian, espalhando significados não ditos pelos cantos.
As crianças finalmente dormiam, exaustas pela euforia do jantar, e o único som era o leve tilintar da minha taça de vinho, girando devagar entre meus dedos. O líquido rubro formava redemoinhos preguiçosos e eu me concentrava neles porque encarar Adrian diretamente parecia… demais.
Ele estava sentado no sofá, não tão perto, não tão longe. Mas a presença dele… O homem preenchia o espaço inteiro só com a tranquilidade do corpo e a intensidade do olhar.
Eu ainda sentia o calor do constrangimento queimando as bochechas, o desastre da porta, a toalha, a água escorrendo pela pele, o olhar dele congelando. Uma lembrança tão viva que parecia tatuada no ar.
Tomei um gole de vinho para engolir a sensação.
— Obrigada por hoje — eu disse, a voz rouca, cansada, mas sincera. — Por tudo. Por ter vindo. Por ter lidado com o caos. Por ter sido tão bom com eles.
Ele inclinou o corpo para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, e me olhou daquele jeito que me desmontava.
— Não precisa me agradecer — ele disse com uma serenidade que quase doeu. — Foi a melhor noite que eu tive em anos.
Meu coração bateu um pouco torto.
O silêncio voltou, grosso, denso, puxando a respiração dos dois. A pergunta dele estava pendurada no ar desde a hora em que ele entrou aqui. E eu sabia. Sabia que ia chegar.
E chegou.
— Lianna… — ele colocou a taça na mesa com cuidado. — Hoje cedo no hospital… por que você correu? Do Zayden. O que ele te fez?
Por um segundo, fechei os olhos. Aquela pergunta era como mergulhar num lago gelado no inverno.
Doía. Travava o ar. Mas eu precisava responder.
Respirei fundo. O vinho queimou na descida.
— Para você entender, eu preciso voltar bem mais do que hoje — comecei, a voz baixa. — É uma história longa. Uma história que eu preferiria enterrar. Mas com você… acho que eu consigo falar.
Levantei o olhar para o teto. A dor, quando chega devagar, é sempre mais cruel.
— Eu casei com o Zayden muito jovem. E ele… — engoli seco. — Ele era o sol. Sabe aquela luz que te cega, te aquece, te faz querer ficar mais perto mesmo sabendo que queima? Era isso. Intenso. Brilhante. E perigoso demais pra encarar de frente.
As lembranças me atravessaram como navalha.
— No início, era paixão. Daquelas que bagunçam tudo. Mas depois… ele virou ausência. As desculpas eram sempre as mesmas: trabalho, viagens, reuniões. Nossa casa virou… um espaço branco. Um silêncio confortável pra ele, sufocante pra mim. O toque dele desapareceu. E quando existia… — eu dei um sorriso curto, ferido. — Era só sexo. Rápido. Vazio. Eu me senti sozinha dentro do meu próprio casamento. Uma planta esquecida num vaso caro.
Adrian não disse nada. Mas eu senti a respiração dele mudar.
— Eu tentava manter esperança. Acreditar que era só uma fase. Até que um dia, eu passei mal. Muito mal. Fui fazer uns exames. E foi lá que eu vi.
Senti a garganta fechar.
— No corredor da ala de oncologia. Ele. E a Camille.
Eu respirei fundo, mas o ar parecia faltar.


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