POV LIANNA
O relógio digital piscava 20:03 na minha tela quando a ligação com as crianças finalmente estabilizou. A imagem deles, meio desfocada pela câmera do tablet, já era suficiente pra derreter tudo em mim.
Selina estava de pijama rosa com unicórnios. Selin vestia um moletom azul que dizia “SPACE KID”. Os olhos dos dois brilhavam do mesmo jeito, o jeito que, até hoje, Zayden nunca mereceu.
— Mamãe! — Selin gritou, quase pulando no colchão atrás de Amanda. — Você já tá chegando?
Eu sorri, mesmo cansada, mesmo exausta depois de tantas horas de plantão.
— Filho, a mamãe só volta amanhã à noite. Mas eu já tô morrendo de saudade.
— A gente também — Selina disse, abraçando o irmão pela cintura. — A tia Amanda fez panqueca de chocolate.
Amanda apareceu atrás deles, rindo.
— Eu estraguei eles oficialmente, tá? Pode me agradecer depois.
— Você é um anjo — murmurei, sentindo o corpo todo relaxar. — Eu te ligo depois que eles dormirem.
— Liga sim. Quero atualizações do… outro assunto, se é que me entende.
Meu rosto esquentou. Claro que ela estava falando de Adrian. Droga. Eu ainda sentia o toque dele na pele, como se tivesse sido marcado a ferro quente.
— Depois a gente fala — respondi, desviando o olhar.
Amanda piscou, cúmplice.
— Ok. Vou deixar vocês conversarem mais um pouquinho.
Ela saiu da câmera e eu respirei fundo.
— Então, meus amores… deu certo o dever de casa?
— Sim! — os dois disseram juntos.
Eu estava prestes a perguntar mais alguma coisa quando a porta da minha sala explodiu para dentro, batendo contra a parede com tanta força que o barulho atravessou meu peito como um choque elétrico.
Eu congelei. Meu corpo inteiro reconheceu antes da minha mente.
A respiração parou. A mão tremeu. O coração disparou.
Zayden.
Ele entrou como sempre fez: sem bater, sem permissão, sem respeito. Como se o mundo inteiro fosse propriedade dele.
A raiva estampada no rosto dele era tão densa que parecia preencher a sala como fumaça tóxica.
— Quem diabos achou que era uma boa ideia te colocar na diretoria? — ele disparou, ignorando completamente o fato de que eu estava em ligação.
Selin ouviu. É claro que ouviu.
— Oi? — a voz dele saiu pequena, assustada. — Quem tá aí?
Zayden me encarava como se eu tivesse cometido um crime. E, pra ele, eu tinha.
Eu olhei rapidamente para o tablet.
— Está tudo bem, querido — disse, forçando a voz ficar neutra, quando na verdade meu estômago já estava gelado. — Eu preciso trabalhar agora. Vai dormir, ok?
— Mas… o moço tá gritando com você…
Meu mundo desabou naquele segundo.
Zayden deu um passo à frente, os olhos estreitando em direção ao tablet...
— Desliga. Agora.
Meu sangue gelou.
— Vou falar com você amanhã. Vai descansar.
E desliguei antes que qualquer palavra dele chegasse ao ouvido das crianças.
Quando a tela ficou preta, a respiração que eu segurava finalmente escapou num tremor.
Zayden cruzou os braços, o maxilar travado.
— Quem era? — perguntou, cada sílaba cuspida com hostilidade. — Quem você estava escondendo de mim?
Ele riu um pouco, caminhando pela sala como um animal que ronda antes de atacar.
— Claro que tem. E eu vou descobrir.
Meu estômago virou. A náusea veio forte, mas segurei.
Ele se inclinou sobre minha mesa, aproximando o rosto do meu, a centímetros.
— E outra coisa — murmurou, a voz baixa, tão baixa que parecia um sussurro sujo. — Se eu descobrir que você está fodendo com aquele médico… Lianna, eu juro que—
— Sai da minha sala — interrompi, firme.
Ele congelou. Não esperava interrupção.bNão esperava resistência.
— O quê?
— Sai. Da. Minha. Sala. AGORA!
Os olhos dele incendiaram.
— Cuidado comigo, Lianna — ele sussurrou, venenoso. — Você não sabe brincar esse jogo.
— Eu não estou jogando — respondi. — Eu estou sobrevivendo.
— Você sempre gostou de drama — ele ironizou.
Eu respirei fundo, endireitei a postura e deixei minha voz sair firme, mais fria do que gelo derretido.
— Outra coisa: Se você voltar a invadir minha sala, a me perseguir, a levantar a voz comigo, ou tentar controlar qualquer aspecto da minha vida… eu não vou pensar duas vezes. Eu vou envolver a polícia. E a polícia de Genebra não se curva para empresários ricos, você sabe. Está brincando com alguém da diretoria, cuidado, Zayden.
A expressão dele mudou. Não para medo. Zayden não tem medo. Mas para raiva ferida. Raiva de macho que perdeu o controle.
— Isso não acabou — ele disse, caminhando até a porta.
— Acabou sim — respondi, antes que ele saísse. — Há sete anos.
Ele me olhou por um último segundo. Um olhar que prometia tempestade Um olhar que dizia que viria algo pior.
Depois saiu, batendo a porta com a mesma violência com que entrou.

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