POV ADRIAN
Selin e Selina correram até o carro como dois passarinhos apressados, e eu segui com as mochilas nas mãos.
Sim. As mochilas. Porque essas crianças tinham uma capacidade singular de esquecer metade dos materiais escolares na mesa da cozinha.
— Tio Adrian, a gente vai no seu carro hoje? — Selina perguntou, os olhos brilhando.
— Só se vocês me prometerem que não vão derrubar migalha de biscoito nos bancos — respondi, abrindo a porta traseira.
— A gente promete! — disseram os dois em coro.
Mentira. Prometeram com a cara mais mentirosa do planeta, mas eu entrei no papel de adulto cego voluntário e deixei por isso mesmo.
Apertei o botão do banco, e as cadeirinhas ergueram-se automaticamente, uma tecnologia que eu tinha instalado por desencargo de consciência. Nunca imaginei que realmente fosse usar. Mas ver os dois pularem animados nelas… bem… valeu cada centavo.
Eu revisei os cintos, como Lianna faria. Duas vezes, porque eu sabia que ela revisaria duas. E só então entrei no carro.
— Que música vocês querem? — perguntei, já dando partida.
— A da baleia triste! — Selina berrou.
— NÃO! — Selin gritou desesperado. — Por favor, tio Adrian, não! Ela faz isso todo dia!
Eu ri, balançando a cabeça.
— Ok, sem baleia triste — declarei, sério como se estivesse assinando um decreto médico. — Algo mais… humano?
Selina cruzou os braços, dramatizando. Selin respirou aliviado. Coloquei uma playlist tranquila, algo de piano moderno. Eles gostaram. Milagre.
Quando entramos na avenida principal, Selin puxou assunto com a seriedade de um executivo de 40 anos.
— Tio Adrian?
— Diga.
— Você gosta da minha mãe?
Tá. Direto assim.
Eu engoli a resposta que meu instinto soltaria, demais. E usei o protocolo neutro de adulto em situação emocionalmente delicada.
— Gosto sim. Ela é uma ótima amiga.
Selina franziu o nariz, desconfiada.
— Mas você dormiu lá.
— Dormi porque ela estava cansada — respondi calmamente. — E porque eu queria garantir que ela ficasse bem.
Eles trocaram um olhar cúmplice de gêmeos.
— Minha mãe gosta de você — Selina disse, como quem entrega uma informação sigilosa.
Meu peito aqueceu.
— É mesmo?
— Aham. — Selin completou. — A gente vê no olho dela.
Eu sorri, sem conseguir evitar.
— Vou lembrar disso.
Eles se animaram com o impacto da própria opinião e começaram a tagarelar sobre coisas completamente aleatórias: desenhos, um menino da escola que tinha lambido uma moeda, a professora que conseguia “fazer olhos de tubarão”, e um bolo de morango que Selina sonhou que comia.
O caminho até a escola se tornou um show infantil particular.
Quando o carro entrou no estacionamento exclusivo para drop-off, a realidade voltou como uma bofetada social.
A escola era… bom… a escola. Alta sociedade suíça. Três prédios. Vidro por todos os lados. Jardins esculpidos como se tivessem sido podados com bisturi. E o pior: Mães.
Toda uma congregação delas. Maquiadas às sete e meia da manhã. Entrando no modo predatório assim que viram meu carro estacionar.
— Tio Adrian… — Selin murmurou com os olhos arregalados. — Elas tão te olhando.
— É. Estão mesmo. — Selina confirmou, jogando o cabelo de lado como se fosse uma repórter de fofoca.
— Elas sempre fazem isso? — perguntei, saindo do carro.
— Sim. — Selina deu de ombros. — Elas são chatas.
Ah. Então era hereditário. A mãe deles também achava.
Desci primeiro, contornei o carro e abri as portas traseiras. Os dois pularam para fora, e eu ajeitei as mochilas nos ombros deles. Ajeitei gorros, cachecóis, abraçadeiras, tudo como eu tinha visto Lianna fazer.
Quando finalmente seguraram minhas mãos para atravessar o estacionamento, eu já tinha um pequeno público.
Três mães se aproximaram imediatamente.
Saltos caros. Casacos mais caros ainda. Perfume que parecia custar o preço de um rim.
— Bom dia — disse a primeira, uma loira que parecia saída de um catálogo de inverno. — Você deve ser… o pai?
Selin fez uma careta imediatamente. Selina quase falou não na hora, mas eu apertei a mão dela discretamente.
— Bom dia! — respondi com um sorriso leve. — Só sou amigo da mãe deles.
A segunda mãe arquear o olhar.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe!