Sebastião Lima tomou um gole de vinho e, fingindo um ar de sabedoria, disse:
— Bem...
Enquanto Sebastião Lima alongava a fala, todos ao redor esticaram os ouvidos, atentos.
— Que o divórcio vai acontecer, vai, mas quando e de que forma, isso só depende do Henrique.
Ou seja, nem ele mesmo sabia ao certo.
Todos soltaram um “tss” ao mesmo tempo, revirando os olhos para ele.
— Você, que é tão próximo do Henrique, também não sabe? Então é porque ainda não conseguiram se divorciar — alguém comentou. — Mas, sinceramente, acho que, no fim das contas, a vontade do Henrique já nem é tão importante assim.
— Como assim? — outro, curioso, perguntou.
O primeiro explicou:
— Afinal, a senhora, mãe dele, gosta tanto da Estrela Rocha... Sem a aprovação dela, o Henrique jamais teria coragem de se separar por conta própria. Ainda mais agora, com ela já chegando aos setenta...
Olhou ao redor, certificando-se de que ninguém prestava atenção, e continuou em voz baixa:
— Acho que o Henrique vai acabar esperando a senhora partir para, só então, se divorciar da Estrela Rocha.
O grupo silenciou.
Apesar da dureza das palavras, havia sentido naquela lógica.
Sebastião Lima pareceu compreender de repente.
Ele já havia tentado sondar Henrique Freitas sobre o divórcio em conversas anteriores, mas Henrique sempre desviava do assunto.
Por um momento, Sebastião até pensou que o amigo tinha desistido da ideia, mas, dias atrás, ouviu de Clara Alves que Henrique lhe dera um anel de diamantes.
Aquilo praticamente confirmava que Henrique não mudara de ideia, mas Sebastião continuava curioso sobre o que impedia o amigo.
O comentário de agora esclareceu tudo para ele.
Na verdade, a senhora era mesmo o maior obstáculo à separação dos dois.
Além disso, Henrique Freitas era conhecido por ser um filho exemplar, respeitoso, incapaz de fazer algo que pudesse magoá-la.
— Mas... vai ter que esperar até quando? — alguém questionou.
— Esperar, né? Não deve demorar muito — respondeu outro, em tom de segredo.
Sebastião Lima colocou a taça na mesa.
Ele já havia visto o último laudo médico da senhora: apesar de alguns problemas de saúde, nada grave; ela poderia muito bem viver mais uns bons anos.
Ou seja, Henrique Freitas talvez tivesse que esperar uma década ou mais para, finalmente, se casar com Clara Alves.
— Não existe outro jeito? Alguma forma de convencer a senhora a aceitar o divórcio? — Sebastião perguntou.
O amigo bateu no ombro dele com cumplicidade:
— Sebastião, você foi direto ao ponto. Acabei de conseguir algo interessante. Quer dar uma olhada?
***
Estrela Rocha, ao entrar, logo percebeu o grupo de Sebastião Lima reunido mais à frente.
No instante em que olhou naquela direção, Sebastião Lima também a fitou.
Trocaram um rápido olhar, e ele desviou imediatamente, visivelmente desconfortável.

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