Era impossível para Estrela Rocha não notar os gestos de Henrique Freitas e Clara Alves no palco.
Apesar disso, ela permaneceu circulando entre as pessoas, distribuindo seus cartões de visita e promovendo com afinco as vantagens do robô inteligente UME, além de projetar possíveis ganhos para futuras parcerias.
Alguns, embora a desprezassem por dentro, mantinham uma expressão de interesse, recebiam o cartão e, assim que ela se afastava, o entregavam sem pensar para um assistente ao lado.
Outros nem sequer se davam ao trabalho de fingir: rasgavam o cartão na frente dela e jogavam direto no lixo.
Havia ainda aqueles que, ao vê-la se aproximar, fingiam não perceber sua presença e se afastavam discretamente.
Estrela Rocha entendia que tudo aquilo era uma forma de demonstrar lealdade ao Grupo Freitas.
Embora a UME já tivesse conquistado certa notoriedade, a posição do Grupo Freitas em Cidade R continuava inabalável.
Na conjuntura atual, mesmo que a tecnologia e a repercussão da UME superassem largamente as do Grupo Freitas, ninguém ousava se opor a eles.
Ainda assim, o simples fato de aceitarem seu cartão já era o primeiro passo para o que ela pretendia.
Quando a UME tivesse voz ativa em Cidade R, essas pessoas repensariam suas escolhas.
Após se certificar de que havia feito contato com todos, Estrela guardou os cartões restantes.
Sua boca estava seca de tanto falar.
Preparava-se para pedir um copo d'água a um garçom quando sentiu um empurrão forte nas costas.
Por pouco não caiu; ao se virar, deparou-se com o olhar de satisfação de Júlia Rocha.
Estrela já havia notado os membros da família Rocha anteriormente, mas preferira não cumprimentá-los para evitar problemas.
Não esperava que Júlia viesse por iniciativa própria.
Júlia soltou um risinho irônico e disse:
— Se eu fosse você, não teria vindo aqui hoje me expor desse jeito. Deve ser difícil ver seu marido trocando carinhos com outra mulher, não?
Ao falar, indicou com o olhar o casal no palco.
Estrela sorriu de leve:
— Se eu fosse você, não diria esse tipo de coisa só para me humilhar. No fim das contas, independente de meu marido estar com outra mulher, pelo menos já fui escolhida. Diferente de certas pessoas, que ficam amargas por nunca conseguirem o que querem.
— Você...
O rosto de Júlia ficou lívido de raiva.
Logo, porém, ela se recompôs.
Ela não estava ali para discutir com Estrela.
Além disso, Estrela parecia completamente diferente ultimamente, como se tivesse enlouquecido, atacando sem descanso, em nada lembrando quem era antes.
Júlia não sabia lidar com isso.
Mas alguém saberia.
— Papai quer falar com você — disse Júlia, apontando com o queixo para trás.
Estrela olhou na direção indicada e viu Cesar Rocha não muito longe, brindando com outros convidados.
— O que ele quer? — perguntou Estrela.
Júlia deu de ombros:
— Como eu vou saber? Se tem interesse, vá perguntar direto pra ele. Ouvi dizer que é sobre sua mãe.
Ao ouvir falar da mãe, o semblante de Estrela ficou mais sério.
Sem mais hesitar, foi ao encontro de Cesar Rocha.
Naquele momento, Cesar acabava de brindar e, ao vê-la se aproximar, deixou de sorrir, lançando-lhe um olhar frio.

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