O rosto de Jessica assumiu um tom quase esverdeado de desgosto, mas ela não teve coragem de dizer mais nada, mantendo a postura a muito custo enquanto retomava a refeição.
Não sabia se era só imaginação de sua cabeça, mas ela tinha a forte impressão de que, por trás daquele desprezo da matriarca por Hera, escondia-se também uma dose de desdém por ela, a própria nora.
Que absurdo! Ela havia dado à Família Cardoso dois netos incrivelmente talentosos e tinha sido extremamente submissa aos caprichos da velha a vida toda para, no fim das contas, ser deixada para trás e ver uma jovem nora levar a melhor. Toda essa frustração agigantava o ressentimento de Jessica.
Momentos antes, Hera já a havia alertado. Ela disse que, enquanto tratava da saúde da avó, Tereza com certeza estava envenenando os ouvidos da velha contra ela. Na época, Jessica tentou acalmar Hera, argumentando que a velha tinha um discernimento muito afiado e suas próprias convicções, de modo que jamais seria influenciada pelo disse me disse alheio.
Analisando tudo agora, a única ingênua daquela história era a própria Jessica.
Ela fitou as feições puramente relaxadas de Tereza. Embora a tempestade tivesse sido iniciada pela nora, ela adotava agora a imagem de alguém que não tinha nada a ver com o conflito, uma postura capaz de deixar qualquer um louco de raiva sem nenhuma consequência.
Norberto ficou isento de todo aquele burburinho e condenações, mas, do fundo do seu ser, não estava nem um pouco contente. Tereza vivia criando confusões pelo divórcio e argumentava da boca para fora que não estava tornando aquilo público em respeito à filha. Então, por que diabos ela estava agindo assim?
Tarde da noite!
As luzes no luxuoso apartamento de andar inteiro de Hera brilhavam intensamente.
Jessica apareceu segurando um pouco de comida, e Hera abriu a porta vestindo um pijama.
— Mãe, já é tão tarde, não falei para a senhora não vir? — falou Hera num tom gentil, embora o seu rosto demonstrasse um toque de surpresa e alegria. — Entre logo, o vento lá fora está bem frio.
Jessica entrou na sala de estar e colocou a comida em cima de uma mesa.
— Já jantou? Ouvi dizer que você estava indisposta, então decidi vir te ver.
Hera foi na mesma hora abrir os potes e, ao notar que lá dentro estava o seu jantar favorito, não poupou os sorrisos e respondeu:
— Eu estava morrendo de fome, na verdade. Muito obrigada por esse jantar cheio de amor e carinho que a senhora trouxe bem na hora.
Ela serviu um copo de água quente para Jessica primeiro e, logo depois, sentou-se para comer.
Jessica bebeu a água, mas ao vê-la comer com tanta satisfação, aquele sentimento de sufocamento lhe dominou mais uma vez.
— O que houve, mãe? Está preocupada com alguma coisa de novo? — demonstrou Hera, num questionamento transbordante de sinceridade.
Jessica colocou o copo de volta sobre a mesa, com a voz embargada por algumas fiações de ira:
— Eu fiquei sabendo das fofocas que rolaram na empresa. Hoje à mesa de jantar, tinha planejado jogar a real na Tereza para ela ter um pingo de noção das suas atitudes e escândalos. E então, o impensável aconteceu: quem acabou me repreendendo duramente foi a sua avó, enquanto a Tereza nem se deu ao trabalho de falar alguma coisa.
Hera escutou aquilo e imediatamente manifestou aflição e uma angústia comovente.
— Mãe, sinto muito por ter feito a senhora esquentar a cabeça outra vez. O que a vovó disse?

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