Ela deu meia-volta e desceu as escadas.
Bem ali nos degraus, avistou sua filha de quatro anos, Delfina Cardoso, pulando alegremente e trocando doces com outras crianças da mesma idade.
— Mamãe... — Delfina caminhou feliz até ela e abraçou uma de suas pernas. — Eu estou brincando de pique-esconde com os meninos e as meninas. Está sendo muito divertido!
Ao olhar para o rostinho inocente da filha, a dor em seu coração tornou-se insuportável.
Tereza agachou-se e limpou os farelos de doce no canto da boca da menina.
— Mamãe, é para você — as mãozinhas de Delfina tiraram prontamente dois chocolates do bolso e os colocaram na mão da mãe.
Um nó se formou na garganta de Tereza. Com as pontas dos dedos ligeiramente frias, ela aceitou os chocolates da filha.
Não muito longe dali, ouviu-se a voz do mestre de cerimônias convidando os ilustres convidados a se dirigirem ao salão de homenagens.
— Delfina, seja boazinha e vá procurar a Dona Natália. Peça para ela lhe dar algo para comer. A mamãe ainda precisa receber os convidados — Tereza saiu de seu transe e acariciou os cabelos da menina.
— Está bem! — Delfina concordou com a cabeça docemente e saiu saltitando.
Tereza levantou-se, agarrou o corrimão da escada com força e respirou fundo.
Então, durante todos aqueles anos, a harmonia conjugal, a fraternidade entre os irmãos e a proximidade entre cunhadas em que ela acreditara não passavam de uma farsa.
Tereza desceu as escadas lentamente. A aproximação de um convidado para cumprimentá-la a forçou a estampar mais uma vez um sorriso educado no rosto.
— Diretor Couto, peço mil desculpas, mas não consegui encontrar uma roupa reserva por enquanto. Pedi a um funcionário que lhe trouxesse uma toalha limpa e um sobretudo. Por favor, use isso temporariamente para não pegar um resfriado.
O Diretor Couto agradeceu cortesmente.
A cerimônia começou.
A marcha fúnebre tocava em um volume baixo, e Norberto, como irmão do falecido, discursou em nome da família.
Tereza ergueu o olhar para o homem no púlpito. Ele usava um terno preto, mantinha uma postura ereta, e seu rosto bonito exibia uma expressão de profunda dor.
O homem que dividira a cama com ela por seis anos parecia envolto em uma névoa espessa; ela já não conseguia enxergá-lo com clareza.
Ela sabia que, a partir daquele dia, certas coisas nunca mais seriam as mesmas.
Seus dedos tocaram levemente o rostinho adorável da filha, e ela se curvou para dar-lhe um beijo.
Logo após o nascimento, Delfina fora diagnosticada com uma doença cardíaca congênita, o que representara um golpe devastador para toda a família.
Felizmente, quando ficasse um pouco maior, Delfina poderia passar por uma cirurgia. Até lá, porém, cada detalhe exigia cuidado redobrado: a comida, as brincadeiras, o cansaço, tudo.
O que havia acontecido naquela noite deixara feridas profundas no íntimo de Tereza.
Ela não podia mais continuar sendo aquela Sra. Cardoso que só sabia cuidar da casa, sempre gentil e compreensiva.
Pelo futuro de sua filha, e por si mesma, ela precisava descobrir qual era o verdadeiro papel de seu marido naquele grande teatro de amor fraternal.
Naquela noite, Norberto permaneceu na mansão antiga. Por volta das onze horas, ele ligou para Tereza para dar satisfações.
— Tereza, alguns convidados importantes ainda estão aqui na mansão. Preciso ficar e fazer as honras. Leve a nossa filha para descansar cedo.

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