— Então, quer dizer que você usará todos os recursos da Família Cardoso para pavimentar o caminho dela, arriscando até mesmo a estabilidade administrativa da empresa, tudo para dar a ela um simples pretexto para continuar entre nós? — Tereza proferiu cada palavra de forma calculada, com um tom perigosamente gelado.
— Sim! — a resposta de Norberto foi seca e convicta.
— Ótimo! — Tereza aceitou aquele privilégio absurdo que ele concedia à cunhada.
Ao escutar a anuência dela, Norberto soltou um suspiro de alívio.
— Além das ações que você ofereceu como compensação, farei mais duas exigências. — Com as mãos firmemente agarradas ao volante, Tereza declarou com uma lucidez afiada.
— Certo, pode falar. — Norberto foi pego de surpresa pela firmeza dela.
Tereza sempre fora alguém que repudiava confrontos desnecessários; sua índole era suave como a água, um poço de delicadeza e força interior inabalável. Aliás, era justamente essa característica que ele mais admirava nela.
Por isso, ele estava convicto de que qualquer exigência que ela fizesse não seria um problema.
Sob o efeito do álcool, Norberto aguardou que Tereza detalhasse os seus termos. Mas ela mergulhou em um silêncio cortante. Sem insistir, ele simplesmente fechou os olhos para descansar durante o trajeto.
Ao chegarem à mansão, depararam-se com Delfina, sentada sozinha nos degraus da entrada. Ela usava um casaco jogado sobre os ombros e brincava distraidamente com uma varinha mágica luminosa, acendendo-a e apagando-a sem muito interesse. Foi apenas quando o carro se aproximou dos portões que o seu rostinho se iluminou e ela se levantou, de olhos brilhando de alegria.
Assim que estacionou, Tereza mal abriu a porta e viu Norberto sair apressado na frente dela.
Delfina correu e saltou nos braços do pai:
— Papai, por que você veio no carro da mamãe hoje?
— Porque o papai bebeu um pouco. — A voz de Norberto transbordava ternura.
— Papai, você não pode mais beber assim. — Com o ar sério de quem dava uma bronca, Delfina apontou o dedinho para o ombro dele. — Tem que se comportar, ouviu bem?
Sorrindo, Norberto fez a sua promessa:
— Pode deixar. Na próxima, prometo que bebo menos.
Ao observar os dois caminhando juntos, trocando risadas a caminho da sala de estar, o coração de Tereza ardia. Uma sensação esmagadora de impotência lhe consumia a alma.
A sua vontade era jogar os papéis do divórcio bem na cara dele ali mesmo. Porém, ao constatar o afeto cego e a dependência que a filha tinha pelo pai, um mar de hesitações inundava a sua coragem.
Segurando a bolsa com firmeza, Tereza entrou na sala. Encontrou Norberto sentado no sofá, admirando os desenhos da filha, não economizando nos elogios:
— Que lindo, Delfina! Você tem muito talento!
— O tratamento dela exige disciplina e eu não posso permitir falhas. Estou apenas cumprindo o meu papel de mãe. Já você, que esqueceu de colocar o relógio nela na semana passada, é quem deveria repensar as suas atitudes.
A expressão de Norberto endureceu por um instante, e ele admitiu a culpa com rapidez:
— Tem razão. O erro foi meu. Prometo não me esquecer na próxima.
— Mamãe, não brigue com o papai. Ele não fez por mal. — Delfina tinha verdadeiro pavor de ver os pais discutindo. Mesmo pequena, era extremamente sensível ao clima da casa; bastava o tom de voz engrossar um pouco para ela intervir, tentando pacificar as coisas.
Tereza olhou para a filha, que parecia mais madura do que a sua idade sugeria, e depois para o marido, cujas atitudes eram difíceis de digerir. Um suspiro cansado escapou-lhe.
— Venha, Delfina. Vamos subir. Mamãe vai te dar um banho quentinho para você dormir. — Segurando a mão da filha, Tereza a conduziu pelas escadas.
Logo atrás, acompanhando-as com o olhar, Norberto voltou ao assunto inacabado:
— Quais eram os dois termos que você pretendia exigir há pouco?
Apertando a mãozinha macia da filha, Tereza sentiu uma dor excruciante no peito. Com a voz embargada, respondeu:
— Quando eu tiver tomado a minha decisão, você saberá.

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