— Na próxima vez, não dê porcarias para a criança comer. — repreendeu Tereza, com tom severo.
— Tudo bem, já entendi. — As sobrancelhas bem desenhadas de Norberto franziram-se levemente.-
— Onde está a sua cunhada? — indagou Tereza.
— Hera disse que tinha um compromisso. Depois de pegarmos a criança, eu a levei de volta para casa. — explicou Norberto.
Ao ouvi-lo referir-se a Hera pelo primeiro nome, as sobrancelhas de Tereza contraíram-se de forma quase imperceptível.
Embora já o tivesse ouvido chamá-la assim no dia a dia, hoje aquilo soava particularmente incômodo.
— Mamãe, faz tanto tempo que não saímos para jantar. Eu quero comer fora hoje. — manhava Delfina, abraçada ao pescoço de Tereza.
Não querendo decepcionar a filha, Tereza concordou com a cabeça: — Está bem!
Naquele instante, Norberto recebeu uma ligação e afastou-se para atender.
— Aconteceu um imprevisto com a Hera. Preciso ir dar uma olhada. Leve a Delfina para o restaurante que eu reservei, assim que eu resolver tudo, vou para lá. — disse ele a Tereza, retornando minutos depois com uma expressão indecifrável.
Tereza ficou atônita e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a figura imponente do marido já se dirigia ao carro.
O Bentley preto desapareceu em meio ao trânsito.
— O papai fugiu de novo, poxa. — resmungou Delfina Cardoso, cruzando os bracinhos, irritada com a partida abrupta do pai.
Vendo a filha amuada, Tereza só pôde consolá-la com ternura: — O papai foi resolver um problema. Assim que terminar, ele com certeza virá jantar com você.
A pequena assentiu com a cabeça.
Logo depois, segurou a mão de Tereza: — Mamãe, vamos logo comer, estou com fome.
Tereza observou o vaivém constante dos carros na avenida.
Sentia como se uma enorme pedra repousasse sobre seu peito, dificultando sua respiração.
Hera havia acabado de perder o marido. Talvez, realmente precisasse de alguém para consolá-la.
Mas será que essa pessoa precisava ser o Norberto?
Tereza soltou uma risada amarga e levou a filha em direção ao estacionamento.
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