A mentira fluiu com a naturalidade de um profissional, sem gaguejar nem piscar. Perfeita e irrefutável.
Luana não duvidou. Contudo, o vazio e a rejeição a engoliram. Em sua mente, ele viajou para fugir dela, ainda fervendo de raiva por sua atitude covarde.
Pegou o celular e discou o número dele. Mas no primeiro bipe, o pânico a dominou e ela desligou.
Permaneceu inerte junto à janela do quarto, como uma estátua sem alma, esperando um retorno que não veio.
Enquanto isso, Sebastião, acompanhado por Benito e alguns capangas, cruzava as rodovias em direção à Montanha Espiritual em busca do curandeiro.
Benito quebrou o silêncio denso do carro:
— Senhor, não seria mais simples trazer esse mestre até nós sob escolta?
Sebastião não abriu os olhos:
— Ele vive isolado, sem paradeiro fixo. Esta viagem é uma aposta desesperada.
Dito isso, encostou a cabeça no banco, mergulhando no próprio silêncio controlador.
Benito testemunhava a rotina destrutiva do chefe: sem dormir e sem comer adequadamente, corroído pela angústia de perder Luana, e ainda acumulando o peso do império corporativo em suas costas.
Mas, mesmo agindo como um monstro ferido e privado de sono, a rentabilidade do Grupo Ramos havia multiplicado exponencialmente sob sua tirania implacável no último trimestre.
O título de gênio dos negócios e predador do mercado não era um exagero.
Benito dirigia, olhando pelo retrovisor para os três seguranças brutamontes no banco de trás. A viagem era longa e o terreno seria hostil, por isso trouxera apenas os homens mais letais do esquadrão.
Cruzaram várias cidades antes de atingirem a rota da Montanha Espiritual. O asfalto deu lugar a estradas de terra esburacadas. Achando que o GPS falhara, Benito verificou a distância decrescente, confirmou o curso e afundou o pé no acelerador, forçando o motor ao máximo.
O veículo sacolejou violentamente pelas pedras até dar um solavanco final e o motor morrer por completo. Benito girou a chave várias vezes, mas a máquina havia cedido. Ele olhou para o banco do carona:
— O carro pifou.
Sebastião abriu a porta e desceu. A postura inabalável não vacilou. Os guardas desceram e tentaram de tudo. Um deles enfiou-se debaixo do veículo. Saiu coberto de graxa e poeira:
Imediatamente, o acampamento rudimentar foi erguido.
Esgotados, Benito e os demais desabaram em suas barracas.
Dentro de sua própria tenda, a mente de Sebastião não lhe dava trégua. Uma inquietação opressiva esmagava seu peito. Ao pegar o celular para ligar para Luana, notou a tela morrendo por falta de bateria — mas antes do apagar final, viu a notificação: uma chamada perdida dela.
Sem hesitar, puxou um carregador portátil da mochila. Conectou o aparelho e retornou a ligação instantaneamente.
Bastou um único toque para a linha abrir.
— Alô.
— Luana. Houve uma emergência e precisei viajar a negócios. Partir rápido e não avisei.
Sebastião segurava o celular conectado ao carregador. Ligou o viva-voz. Saiu da tenda e permaneceu de pé na imensidão gélida da noite montanhosa, com os olhos cravados nos picos engolidos pela escuridão.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
Na fase final sa história eles põem essa mudança ridícula de linguagem esse autor mud para uma linguagem ridícula totalmente fora do contexto atual que iniciou a história...
Fica horrível a leitura quando eles adotam essa linguagem....
Por favor, libera mais capítulos!...