Entrar Via

Toques Proibidos: Prazer em Série romance Capítulo 288

A chuva caía torrencial sobre Belo Horizonte, como se o céu tivesse decidido lavar a cidade inteira naquele fim de tarde de março. Na Savassi, o movimento habitual dos bares e cafés havia se transformado em um aglomerado de pessoas correndo com guarda-chuvas virados pelo vento ou se protegendo sob marquises. O Café do Canto, um dos preferidos de Daniella Mendes, estava lotado. O aroma forte de café recém-passado misturava-se ao cheiro úmido de roupas molhadas e ao doce sutil dos bolos expostos no balcão.

Daniella ocupava a melhor mesa do lugar: aquela junto à janela grande de vidro, com vista para a rua movimentada. Tinha chegado cedo, por volta das três da tarde, quando o céu ainda ameaçava. Agora, eram quase cinco horas e a luz natural havia diminuído drasticamente. A tela do seu tablet brilhava com cores vibrantes, iluminando seu rosto concentrado.

Ela tinha 29 anos, cabelos castanhos ondulados que caíam até os ombros, presos de qualquer jeito com um lápis. Usava uma blusa oversized preta com respingos de tinta seca nas mangas — marca registrada de quem vivia entre o digital e o analógico. Seus olhos verdes, ligeiramente puxados, estavam semicerrados em concentração. Na tela, uma ilustração da Praça da Liberdade ganhava vida: linhas limpas, cores quentes contrastando com o cinza da chuva lá fora.

— Merda... — murmurou ela, passando o dedo na tela para ajustar o tom de azul. — Se esse cliente pedir mais uma alteração de paleta, eu vou cobrar por hora de terapia.

Daniella era ilustradora freelancer havia seis anos. Tinha largado o emprego fixo em uma agência depois de um burnout pesado e agora vivia da loja online de prints artísticos e de projetos sob demanda. Era uma vida instável, mas era *sua*. Pelo menos era o que repetia para si mesma nos dias ruins. Como hoje.

O noivado com Lucas tinha terminado há pouco mais de um ano. Um término feio, cheio de acusações de que ela “não se dedicava o suficiente” ao relacionamento. Desde então, Daniella mantinha os homens a uma distância segura. Flertes, sim. Noites ocasionais, talvez. Mas nada que exigisse entrega real. Seu coração ainda tinha cicatrizes demais.

Ela tomou um gole do cappuccino que já esfriava. A chuva batia forte contra o vidro, criando pequenos rios que escorriam. O som era quase hipnótico. Daniella permitiu-se um momento de distração, observando as pessoas do lado de fora correndo para os carros.

Foi então que a porta do café se abriu com um tilintar de sinos. Um homem alto entrou, sacudindo o guarda-chuva preto. O terno cinza escuro estava molhado nos ombros e nas mangas. O cabelo castanho escuro, ligeiramente ondulado, grudava na testa. Ele passou a mão pelo rosto, tentando secar a água, e olhou ao redor.

Todas as mesas estavam ocupadas. Casais, grupos de amigos, estudantes com notebooks. Ele franziu a testa, claramente atrasado para algo. Seus olhos percorreram o salão até pararem na mesa de Daniella.

Augusto Lima tinha 32 anos e carregava aquela aura de quem estava sempre calculando ângulos. Arquiteto na firma Mendes & Vilela, ele passava os dias entre plantas, reuniões e canteiros de obras. Alto, ombros largos, maxilar bem definido e olhos castanhos profundos que pareciam analisar tudo. Não era o tipo que chamava atenção gritando — era o tipo que fazia as pessoas olharem duas vezes.

Ele hesitou por um segundo antes de caminhar até a mesa dela.

— Com licença... — a voz era grave, um pouco rouca por causa da chuva. — Todas as outras mesas estão cheias. Você se importaria se eu sentasse aqui? Só preciso de uma tomada e de uns vinte minutos para revisar uma apresentação.

Daniella levantou os olhos do tablet. Por um instante, o tempo pareceu desacelerar. O homem era absurdamente atraente de perto. A camisa social colada no peito por causa da chuva marcava o contorno dos músculos. Havia algo de sério e ao mesmo tempo cansado em sua expressão.

Ela ergueu uma sobrancelha, com aquele sarcasmo natural que usava como escudo.

— Depende. Você ronca? Faz barulho ao mastigar? Ou pior: vai ficar me olhando enquanto trabalho?

Augusto soltou uma risada baixa, surpresa.

— Prometo ser um parceiro de mesa silencioso e respeitável. Nada de roncos. Mastigação discreta. E olhares apenas quando você não estiver olhando.

Daniella não conseguiu segurar o sorriso. Empurrou a cadeira ao lado com o pé.

— Pode sentar. Mas se você invadir meu espaço com cotovelo de arquiteto, eu te expulso.

— Arquiteto? — ele perguntou, sentando-se e já tirando o notebook da pasta de couro molhada. — Como você sabe?

— Palpite. Você tem cara de quem mede tudo. Inclusive as pessoas.

Augusto conectou o carregador e abriu o notebook. Enquanto o sistema carregava, seus olhos inevitavelmente caíram para a tela do tablet dela. A ilustração da Praça da Liberdade estava quase pronta: as palmeiras, o casarão histórico, as pessoas estilizadas caminhando.

— Uau... — murmurou ele, genuinamente impressionado. — Você capturou a luz de Belo Horizonte perfeitamente. Essa mistura de clássico e caos urbano. É raro ver alguém traduzir tão bem a cidade.

Daniella sentiu um calor inesperado subir pelo pescoço. Poucas pessoas entendiam seu trabalho de verdade.

— Obrigada. É pra um cliente que quer uma série de prints da capital. Mas ele vive mudando de ideia. Hoje quer mais “romântico”, amanhã quer “moderno”. Estou quase desenhando ele sendo atropelado por um ônibus artístico.

Augusto riu novamente. Uma risada quente, grave, que combinava com a voz.

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Toques Proibidos: Prazer em Série