Os dias seguintes àquele encontro chuvoso na Savassi foram estranhamente quentes para o mês de março em Belo Horizonte. A chuva havia dado uma trégua, deixando o ar mais úmido e o céu de um azul quase ofensivo de tão limpo. Daniella Mendes tentou, com todas as forças, não voltar ao Café do Canto. De verdade. Na terça-feira, ela trabalhou em casa, respondendo e-mails e finalizando uma ilustração para uma marca de cafés especiais. Mas a concentração simplesmente não vinha. Toda vez que olhava para a tela, via os olhos castanhos intensos de Augusto e o jeito como ele havia sorrido torto ao sair.
— Isso é ridículo — murmurou ela para o próprio reflexo no espelho do banheiro, enquanto prendia os cabelos. — Você conversou com o cara por quarenta minutos. Quarenta. Não é como se ele tivesse salvado sua vida.
Ainda assim, na quarta-feira, às três e meia da tarde, lá estava ela novamente. Mesma mesa junto à janela. Mesmo pedido: cappuccino com canela e um pedaço de bolo de cenoura. O tablet aberto, mas o trabalho avançando devagar demais.
Ela estava retocando as sombras de um desenho do Mercado Central quando a porta do café tilintou. Daniella não precisou levantar os olhos para saber. Sentiu o ar mudar. O mesmo cheiro sutil de colônia amadeirada misturado agora com o calor do dia.
Augusto Lima entrou vestindo uma camisa social azul-clara com as mangas dobradas até os antebraços, revelando antebraços fortes e veias discretas. A calça jeans escura e os sapatos sociais indicavam que ele viera direto de alguma reunião. Seus olhos varreram o salão e pararam imediatamente nela. Um sorriso lento se abriu em seu rosto.
— A mesa da janela está ocupada novamente — disse ele, aproximando-se com as mãos nos bolsos. — Posso?
Daniella ergueu uma sobrancelha, fingindo indiferença, embora seu coração tivesse dado um salto idiota.
— Depende. Hoje você veio seco?
Augusto riu baixinho e puxou a cadeira.
— Totalmente seco. Promessa cumprida. — Ele se sentou, colocando a pasta ao lado da mesa. — E você? Já atropelou seu cliente artístico com o ônibus imaginário?
— Ainda não. Mas ele está pedindo tons mais “alegres”. Como se Belo Horizonte fosse uma cidade de conto de fadas e não de trânsito caótico.
Augusto pediu um espresso duplo ao garçom que se aproximou. Quando ficaram sozinhos novamente, ele inclinou ligeiramente o corpo para frente, observando a tela do tablet dela com genuíno interesse.
— Posso ver?
Daniella hesitou por um segundo, mas virou a tela na direção dele. A ilustração mostrava o Mercado Central visto de um ângulo elevado: barracas coloridas, pessoas estilizadas, detalhes arquitetônicos em traços limpos com explosões de amarelo, laranja e verde.
— Caramba, Daniella... — murmurou ele, quase reverente. — Você transforma o concreto em algo vivo. Olha como as cores dialogam com as linhas das estruturas. É como se a cidade respirasse através do seu traço.
Ela sentiu o rosto esquentar. Poucas pessoas elogiavam seu trabalho com tanta precisão.
— Obrigada. A maioria dos clientes só diz “gostei” ou “fica mais pink”. Você entende de verdade.
— Eu projeto prédios o dia inteiro. Aprendi a olhar para linhas e formas como linguagem. O que você faz é o oposto: dá emoção ao que eu tento racionalizar.
Eles ficaram em silêncio por um momento confortável, apenas o burburinho do café ao fundo. Augusto tomou um gole do espresso e continuou:
— Eu admiro isso. A maioria das ilustrações de cidade que vejo são frias, turísticas. As suas têm alma. Você pega a imperfeição de BH — os fios de energia, os prédios misturados, as montanhas ao fundo — e transforma em algo bonito sem mentir.
Daniella mordeu o lábio, sorrindo.
— Você está tentando me fazer corar ou é sempre assim tão... observador?
— Sou observador. Principalmente quando algo vale a pena observar.
O flerte foi leve, mas direto. Os olhos dele permaneceram nos dela por mais tempo do que o necessário. Daniella sentiu um calor subir pela barriga.
Na quinta-feira, ela voltou. E ele também.
Dessa vez, Augusto chegou primeiro. Quando Daniella entrou, ele já estava na “mesa deles”, com o notebook aberto, mas claramente esperando. Ele levantou o olhar e sorriu como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Eu guardei seu lugar — disse ele, empurrando o cappuccino que havia pedido para ela. — Canela extra, como você gosta.
— Você prestou atenção nisso? — perguntou ela, sentando-se e sentindo uma leve surpresa.
— Eu presto atenção em detalhes. É meu trabalho.
A conversa fluiu ainda mais fácil. Eles falaram sobre a arquitetura de Oscar Niemeyer e como suas curvas ousadas ainda desafiavam o urbanismo de Belo Horizonte. Augusto contou que estava trabalhando em um projeto de retrofit de um prédio dos anos 70 no centro, transformando-o em um espaço sustentável com painéis solares e sistema de captação de água da chuva.
— Não é só sobre construir bonito — explicou ele, gesticulando com as mãos grandes. — É sobre construir responsável. A cidade já tem concreto demais. Quero deixar algo que respire junto com ela.
Daniella ouvia, fascinada. Havia uma paixão contida na voz dele que contrastava com o ar reservado.
— Eu nunca pensei que arquitetos se importassem tanto com o meio ambiente. Achei que era tudo vidro e aço.
— Alguns são. Eu não. Perdi meus pais cedo e aprendi que as coisas que construímos devem durar. Devem importar.

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