POV: ALESSIA LOMBARDI
Três dias. Três dias trancada entre quatro paredes, vivendo do cheiro dele que se recusava a sair das cobertas e do silêncio ensurdecedor do corredor. O Canário não apareceu para os treinos e o Cassian veio todos os dias, me trazendo sorvete e um pouco de sanidade. Eu estava com fome. Uma fome real. Neguei o jantar por puro orgulho, mas agora, às cinco da manhã, a biologia vencia a teimosia; já dava para ouvir meu estômago roncar como um bicho enjaulado.
Levantei-me, tomei um banho rápido para espantar o torpor e esperei o amanhecer terminar de pintar o céu. Após me vestir e pentear os cabelos, fui até a porta, esperando encontrar a tranca batida como sempre. Mas, para minha surpresa, a maçaneta girou com um clique suave.
Abri a porta com cautela e quase morri do coração. O Dominic estava ali. Parado. Como uma estátua de mármore esculpida na entrada do meu inferno pessoal. O susto foi mútuo; vi o brilho bicolore dos olhos dele oscilar por um milésimo de segundo antes da máscara de gelo voltar ao lugar.
— Estava indo ao banheiro — ele mentiu, descaradamente. O banheiro ficava exatamente na direção oposta, o que tornava a cena quase cômica, se ele não fosse um sociopata armado.
Soltei um riso seco, cruzando os braços sobre o peito e aproveitando o constrangimento que pairou no ar.
— Quer entrar? — provoquei.
— Você quer que eu entre? — Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro de uísque, sabonete caro e poder me atingiu em cheio, fazendo minhas pernas ameaçarem fraquejar.
— Você quer falar alguma coisa, Dominic? Então fala de uma vez.
Ele me encarou por um tempo que pareceu uma eternidade antes de abrir a boca. A tensão era tão palpável que eu podia jurar que o ar estava soltando faíscas.
— Eu já avisei ao seu pai. O acordo está selado. Você vai ser devolvida no dia 17 de outubro.
O número 17 bateu no meu peito como uma sentença de morte. Era sério. Ele me devolveria em menos de duas semanas. Engoli em seco, mantendo o queixo erguido para não deixar o desespero vazar pelos olhos.
— E o que isso muda agora?
— Muda que, tecnicamente, você não é mais minha prisioneira. É uma convidada.
— Uma convidada? — Debochei, soltando uma risada curta. — E o que isso quer dizer exatamente? Vou ganhar um chocolate no travesseiro?
— Quer dizer que, como convidada, você tem uma liberdade maior. A porta do quarto não ficará mais trancada. Acho que você entende que não consegue fugir daqui sem um helicóptero, então não preciso de chaves.
— E...? — Eu não via mudança nenhuma, além da humilhação de ser "hospedada" pelo meu sequestrador.
— Você vai me acompanhar. Tenho assuntos a resolver no Brasil e você vai comigo.
Eu ri. Uma risada sem humor que ecoou pelo corredor vazio, beirando o histerismo.
— Que tipo de convite é esse? Você não devia me perguntar se eu quero ir?
— Eu deduzi que você preferiria cruzar o oceano e ver o calor do Brasil a continuar mofando aqui dentro como um móvel velho. Estava errado?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Virgem Roubada pelo Mafioso Psicopata :CONTRATO DE SANGUE