POV/ DOMINIC
Entendi tudo no mesmo instante. A Heloísa tinha aberto a boca. Senti uma fúria cega, não pela Heloísa, mas pela ideia de que a Alessia pudesse pensar aquilo de mim. Aproximei-me rápido, sentando na beirada da cama e segurando o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a focar em mim através do nevoeiro da embriaguez.
— Escuta aqui — minha voz saiu baixa e rouca, vibrando com uma honestidade que eu nunca usei com ninguém antes. — Eu não dou a mínima para esses três bilhões. Eu tenho dinheiro suficiente para comprar metade da Europa, Alessia. Eu não estou te devolvendo pelo prêmio. Eu não vendo o que é meu.
— Então por quê? — Ela soluçou, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto.
— Porque você só vai estar segura com o seu pai enquanto eu caço cada maldito que ousou colocar o seu nome naquela lista. Eu vou virar a Itália, a Europa de cabeça para baixo, vou queimar quem for preciso, mas vou construir um lugar onde ninguém possa tocar em você. Eu não estou abrindo mão de você, sua idiota... só estou deixando você ir agora para poder te proteger.
Ela me encarou por um tempo, processando as palavras no meio da confusão mental. Eu me inclinei e beijei a testa dela, um gesto que era mais do que carinho; era uma promessa de sangue. Talvez ela nem se lembrasse no dia seguinte. Más mesmo assim eu precisava desabafar.
— Eu te amo, Dominic... dói tanto amar você — ela sussurrou, as pálpebras pesando até que ela finalmente se entregou ao sono, ainda segurando a minha mão como se eu fosse sua única âncora no mundo.
Fiquei ali, no escuro, ouvindo a respiração dela se acalmar. Ela disse que me amava. E a pior parte era que, pela primeira vez na vida, eu sabia exatamente o que era sentir o coração batendo por outra pessoa. No dia 17, eu a entregaria. Mas o mundo que se preparasse, porque eu ia voltar para buscá-la, nem que tivesse que passar por cima de todos os Lombardi e Marcellos da Itália
A noite foi um inferno particular. Alessia vomitou duas vezes, o champanhe cobrando o preço alto do estômago vazio e da mistura de emoções. Eu tive que segurar o cabelo dela, limpar seu rosto com uma paciência que eu nem sabia que possuía e aguentar o aperto brutal no peito ao ouvi-la confessar que me amava, várias vezes, enquanto estava fora de si. Ela não lembraria de nada ao acordar. E, por mais que o silêncio dela fosse me matar, era melhor assim.
Pela manhã, Heloísa apareceu para checar a "paciente". Ela me olhou com aquela sabedoria irritante de quem domou um monstro e disse, com a maior naturalidade do mundo, que eu deveria ser honesto sobre meus sentimentos antes de devolvê-la.
— Se eu morrer nessa guerra, Heloísa, o amor dela por mim vai ser a sentença de morte dela — respondi, ríspido, enquanto ajustava o coldre. — É mais fácil ela me odiar. O ódio mantém uma pessoa em alerta, mantém viva. A esperança... a esperança é o que mata a gente.
Saí dali precisando de ar e de movimento. Fiz uma conferência rápida com o Lorenzo; as notícias da Ásia eram tensas, eles estavam prestes a invadir o porto na Índia. O plano era ficarmos quatro dias no Brasil e depois voltar para a Itália. Eu voltaria para reivindicar meu lugar como o novo Capo, não apenas da Sicília, mas de todas as cidades que ousassem me enfrentar.
Antes de focar totalmente nos mapas, saí para buscar o Noah e a Maitê, que estavam hospedados em um hotel por pura questão de estratégia e segurança. Quando os trouxe para a Fortaleza, a presença deles mudou o peso do ambiente. Maitê era deslumbrante, uma beleza suave que parecia iluminar o corredor, e a barriguinha de grávida já estava bem marcada sob o vestido, dando uma ideia de vida em meio a tanto planejamento de morte.
Fiquei observando o Noah. Ele tratava a Maitê com uma proteção feroz, mas havia algo na dinâmica dele com o filho que me fez travar. O Noah olhava para o garoto com um orgulho que eu raramente via no nosso meio. Noah é um homem feito, um protetor, e o Killian o mantém por perto, mas não o deixa se arriscar desnecessariamente. Ele protege o filho do destino sombrio da máfia o quanto pode.
Olhei para o Cassian, que já estava enturmado, e uma dúvida amarga subiu pela minha garganta. Será que algum dia eu veria o Cassian da mesma forma que o Killian vê o Noah? O Cassian ainda é uma criança, mas ele nasceu com o sangue Ferraro. Por mais que eu queira protegê-lo, não há como fugir do destino; ele já faz parte desse jogo.
A interação entre eles era relaxada, o que me irritava e me fascinava ao mesmo tempo. O mundo estava caindo lá fora e o Noah agia como se estivéssemos em férias de verão.
— Escuta, eu só estou indo nessa pelo Killian, mas eu preciso sair — Noah anunciou, checando o relógio. — Tenho uma despedida de solteiro para ir com uns brothers. É papo de homem, sabe como é.

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