POV/ ALESSIA
Cassian soltou meus punhos devagar. Ele olhou para o pote de sorvete que começava a derreter e depois voltou a me encarar, o semblante carregado de um remorso que não pertencia a ele, mas que ele carregava por ser um Ferraro.
— O Dominic tomou a decisão dele — Cassian falou, a voz endurecendo levemente. — E daqui a dois dias, o seu pai vem te buscar. Ninguém sabe onde o Leopoldo está escondido agora, as coisas estão perigosas demais, mas ele vai te levar para algum lugar seguro, longe dos radares. Mas você precisa sobreviver a esses dois dias aqui dentro. Beba a água, coma alguma coisa e vista a sua armadura. Se você deixar que ele veja que te quebrou por completo, ele venceu. Não tem problema ser fraca às vezes, Alessia. Não tem problema chorar. O erro é deixar que eles saibam onde é a sua ferida. E você nunca abaixou a cabeça para ninguém aqui dentro. Continua sendo você.
Eu o encarei através da névoa das minhas lágrimas, sentindo o nó na minha garganta ceder espaço para algo mais rígido.
— É... Você tem razão — murmurei, limpando o rosto com as costas da mão de um jeito brusco. — Já li sobre isso em muitos livros. O primeiro a demonstrar indiferença é o único inteligente na história.
Cassian deu um meio sorriso, o primeiro sinal de alívio no rosto dele em dias. Ele se levantou da cadeira, ajeitando a jaqueta preta. Olhou para mim uma última vez, um aceno curto de cabeça, e caminhou em direção à saída, fechando a porta atrás de si e me deixando novamente na penumbra.
Fiquei deitada de costas por mais alguns minutos, encarando o teto. O choro deu seus últimos solavancos silenciosos, mas o lençol que eu apertava entre os dedos já não parecia um refúgio. Parecia uma mordaça. Eu passei dois dias de luto. Dois dias inteiros jogada no escuro como uma cadela espancada, esperando a hora de ser devolvida como um pacote que o Dominic cansou de brincar.
Ele achava que estava no controle absoluto de tudo. Achava que podia estalar os dedos, me usar no avião e depois me trancar em um quarto até a hora da entrega.
Foram quase três meses. Três meses trancada com aquele homem, vivendo em um cativeiro que virou meu mundo, mudando tudo o que eu achava que sabia sobre mim mesma. Eu tinha me acostumado à presença dele, à posse dele, e agora ele simplesmente me descartava?
Inferno. Eu não ia aceitar aquilo. Se eu estava satisfeita com o pouco que ele me oferecia antes, a humilhação no pátio tinha mudado as regras do jogo.
Sentei-me na beira da cama. Minhas pernas vacilaram por causa do estômago vazio, mas forcei meus pés a firmarem no chão. Caminhei até o banheiro, ligando o chuveiro no máximo. Esperei o vapor cobrir o espelho antes de entrar sob a água quente. Deixei que o jato batesse na minha cabeça, lavando o suor velho, o sal das lágrimas e o último vestígio do perfume do Dominic que insistia em tentar se prender à minha pele. A água descia vermelha do meu ombro machucado, mas eu não ligava para a ardência. O calor que subia pelo meu peito agora vinha de outro lugar. Vinha do orgulho ferido dos Lombardi.
Saí do banho e encarei meu próprio reflexo borrado no vidro. Sequei o corpo com firmeza, vestindo um vetsido soltinho amarelo. Meu rosto ainda estava pálido, com olheiras escuras sob os olhos verdes, mas minha mandíbula estava travada. Eu não ia passar as próximas horas trancada aqui fingindo que estava morta.
Voltei para o quarto e olhei para o pote de sorvete meio derretido que Cassian tinha deixado. Peguei a colher e engoli a primeira porção. O doce gelado arranhou minha garganta seca, mas eu forcei para dentro. E depois outra. E mais outra. Eu precisava de energia. Precisava de força nas pernas para o que ia fazer a seguir.
Se o Dominic queria que eu fosse embora, eu iria. Mas seria nos meus termos. Eu não ia esperar mais dois dias como uma prisioneira acuada na fortaleza dele, esperando o momento em que meu pai me levaria para um esconderijo qualquer no meio do nada. Eu ia assumir o controle da merda da minha vida agora.
Caminhamos até a porta do quarto e a empurrei com força, fazendo o soldado que estava de guarda no corredor se assustar e levar a mão ao coldre imediatamente. Eu nem pisquei.
— Onde está o Dominic? — perguntei, a voz fria e cortante, sem um único traço do choro de minutos atrás.
— No escritório, senhorita Lombardi, mas ele deu ordens para que você...
— Saia da minha frente — ordenei, passando por ele antes que ele pudesse raciocinar.
O soldado que estava no corredor não ousou me impedir. Ele apenas me seguiu com passos incertos, o barulho dos coturnos dele ecoando logo atrás dos meus enquanto eu atravessava os corredores de pedra daquela fortaleza. A cada metro que eu avançava em direção ao escritório, meu estômago dava uma volta completa.
Parei a dois passos da porta de madeira escura. Fechei os olhos e puxei o ar com força pelo nariz, sentindo meus pulmões expandirem até o limite, tentando estabilizar o tremor que ameaçava tomar conta das minhas pernas. Respirei fundo uma, duas, três vezes. Eu não ia chorar. Não ali. Não na frente dele. Engoli o bolo de saliva entalado na minha garganta, ajeitei os ombros e, sem bater, empurrei a porta de uma vez.
O rangido do ferro foi o suficiente para cortar o silêncio da sala.
Dominic estava lá. Ele não estava na postura de Capo que costumava adotar atrás da mesa. A cadeira giratória de couro estava virada ligeiramente de lado, e ele apoiava a cabeça para trás, encarando o teto com os olhos fixos em um ponto invisível. Na mão direita, ele segurava um copo baixo de vidro, onde o líquido âmbar cobria uma única pedra de gelo já quase derretida. O cheiro de álcool e fumo flutuava no ambiente, denso, pesado.
Eu o analisei por um segundo que pareceu durar horas. Ele não estava cem por cento. Havia uma rigidez estranha nos ombros dele, a mandíbula travada de um jeito que fazia os músculos do pescoço saltarem sob a pele, e as olheiras escuras entregavam que o escuro daquele escritório tinha sido o cativeiro dele também nos últimos dias.
Dominic piscou devagar e girou a cadeira na minha direção. O olhar castanho dele caiu sobre mim, frio, opaco, como se estivesse blindado contra qualquer coisa que eu pudesse carregar.
— Aconteceu alguma coisa? — a voz dele saiu áspera, baixa, arranhando o silêncio.
Mantenha a guarda alta, Alessia. Não desaba.

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