POV: ALESSIA LOMBARDI
Acordei com a luz forte do sol batendo direto no meu rosto, cortando as frestas da cortina. Abri os olhos devagar, sentindo as pálpebras pesadas. Girei o corpo para o lado, esticando a mão pelo colchão, mas meus dedos só encontraram o vazio. O lençol ali estava desarrumado, frio, carregando apenas a marca afundada do peso dele e o cheiro forte de uísque misturado ao suor do sexo da madrugada. Dominic já tinha sumido. Ele já estava longe, na arena do pré-conclave.
Levantei da cama com o corpo todo dolorido. Caminhei até o banheiro e liguei o chuveiro, deixando a água quente bater direto na minha cabeça e escorrer pelo meu corpo. Minha traqueia parecia estreitar a cada segundo. Puxei o ar com força, sentindo o vapor quente sufocar meus pulmões enquanto a ficha caía: a contagem regressiva para a minha partida tinha começado.
Saí do banho e vesti outro vestido de alcinha soltinho. Comecei a juntar as minhas poucas coisas de cima da cômoda. À medida que eu dobrava as roupas e as colocava dentro da mala, um desespero físico começou a tomar conta de mim. Meu coração acelerou num ritmo desordenado, uma arritmia incômoda que batia contra as minhas costelas e me tirava o fôlego. Minhas mãos perderam totalmente a firmeza, tremendo tanto que deixei um frasco cair. Minha boca ficou completamente seca. Olhei para o quarto e percebi que logo não teria mais nada meu ali, mas limpei cada canto, organizando tudo minuciosamente para não deixar um único rastro da minha existência naquela fortaleza.
Passei o resto do dia sentada à mesa de canto, com uma caneta e cinco papéis em branco. O silêncio da casa era sufocante. Coloquei no papel tudo o que o meu orgulho jamais me deixaria verbalizar. Escrevi cinco cartas distintas: uma para o Lorenzo, uma para o Cassian, uma para a Siena, uma para o Canário e a última para o Dominic. Quando terminei de dobrar o último envelope, senti meu peito apertar tanto que precisei levantar.
Dei uma última volta pela mansão vazia. O pré-conclave duraria o dia inteiro, então os corredores pareciam um deserto de pedra. Os poucos soldados que restavam nos postos apenas me observavam passar como se eu fosse um fantasma flutuando entre eles. Cassian não estava em lugar nenhum. A ansiedade gerou uma pressão absurda no meu esterno, uma falta de ar que me obrigava a respirar pela boca, sem saber se aquela queimação era medo de encarar o meu pai ou o pavor iminente de nunca mais olhar para o Dominic.
Às quatorze horas em ponto, o som da fechadura do meu quarto estalou.
Dominic empurrou a porta. Ele entrou com a carcaça massiva desalinhada, a camisa escura aberta nos primeiros botões e exalando o suor do combate. O corpo dele estava marcado por arranhões novos e poeira da arena. O ar sumiu do quarto no mesmo instante em que ele parou na minha frente. Engoli em seco, sentindo o bolo de saliva travar na minha garganta enquanto a tensão cortava o ambiente.
— Como foi? — perguntei, força a voz a sair reta.
— Produtivo — Dominic respondeu. A voz dele era um cascalho grosso, seca e fria. Ele deu um passo para o lado, apoiando o peso em uma das pernas. — Os lutadores do dia 30 já estão definidos.
Respirei fundo e estendi o maço de cartas na direção dele.
— Quero que entregue isso a eles. E essa... — separei a dele, deixando-a por cima. — É sua. Só leia quando eu não estiver mais aqui dentro. Escrevi coisas que eu nunca teria coragem de dizer olhando na sua cara.
Dominic olhou para os envelopes na minha mão, mas o semblante dele permaneceu gélido, uma parede de pedra intransponível.
— Eu não tenho nada para você. — ele soltou, a linha da boca perfeitamente reta.

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