POV/ ALESSIA
A carta continua....
((Alessia....
Porque você é, sempre foi e sempre será minha.
Por causa das consequências e das peças do tabuleiro, eu fui obrigado a te deixar partir. Tive que mandar você embora com o Jonas para te manter segura, mas coloque isto na sua cabeça: você é minha. Não importa em qual canto do mundo você se esconda, você continua sendo minha propriedade.
No dia em que a saudade golpear o seu peito e rasgar o seu interior, não desespere. Olha para cima, Alessia. Olha para a porra da lua prateada no céu. Eu vou estar encarando a mesma lua, todos os dias, pensando na minha princesa raivosa. Eu sou completamente louco por você, Alessia Lombardi. Sou louco como ninguém jamais será capaz de ser neste mundo condenado.
Eu realmente tentei te odiar. Planejei o seu sequestro focado no rastro de destruição, achei que encontraria aquela mesma garotinha chorona da infância e que seria fácil te quebrar. Mas você não chorou. Você me encarou com essas esmeraldas furiosas, ergueu o queixo e não deixou a porra da coroa cai. Pela primeira vez na vida, eu fiquei impressionado de verdade. Sinto um orgulho doentio da mulher foda que você se tornou, e ao mesmo tempo me sinto a porra de um bosta por ter feito você sofrer.
Não sei bem qual o sentimento que devemos sentir quando machucamos alguém. Mas ouvir você chorando é comparado a eu queimar no fogo e continuar vivo, apenas sentindo a dor. Deixar você ir é como se eu estivesse me afogando... afogando... e afogando... E o pior é que continuo respirando.
Eu abri mão de uma aliança e de um planejamento de doze anos de vingança só para poder te manter segura.
Sua partida fez o maior estrago da minha vida. Maior do que ver meu pai decapitado. Maior do que ver minha mãe morrer. Maior do que todos os anos que passei no esgoto.
Porque descobri uma coisa humilhante: eu sobrevivi a tudo. Só não sei como vou sobreviver depois que você for embora.
Deixar você partir foi a decisão mais difícil e dolorosa que eu já fiz em toda a minha existência. Mas era necessário. Eu não podia ser egoísta e pensar apenas em mim ou apenas na minha vontade como eu sempre faço. Eu precisava salvar você de mim e do mundo.
Como disse, em toda a minha vida me ensinaram que o mundo existe para servir homens como eu. Engraçado. Porque descobri tarde demais que todas as coisas do mundo servem para me servir.
E eu sirvo, apenas para servir você.
Passei anos desejando vingança. Hoje eu trocaria cada pedaço dela por mais cinco minutos ouvindo você reclamar de qualquer bobagem.
Eles me chamam de capeta, de monstro desprovido de sangue, e eles estão certos. O meu cérebro é um deserto onde nenhuma emoção bonita sobrevive. Mas você plantou uma agonia no meu peito que eu não consigo arrancar. Se amar significa preferir arder no inferno todos os dias para garantir que você continue respirando, então eu estou queimando por você.
Monstros não deveriam ser capazes de amar alguém desse jeito. Você entrou na minha vida e destruiu a única certeza que me mantinha vivo: a de que eu não precisava de ninguém. Você virou a minha fraqueza, a minha fé, a minha pior e única decisão. Se existe alguma parte humana dentro de mim, ela tem o seu nome. Você foi a mulher que me ensinou que eu estava condenado a amar, e essa talvez seja a coisa mais cruel que alguém já fez comigo.
Mandar você embora foi a verdade mais humilhante que já encarei, porque descobri que não existe versão da minha vida onde eu sobreviva sem você.
Então esta carta não é um pedido de desculpas. Não é perdão, não é redenção e muito menos um sinal de fraqueza. É só... a verdade.
Se um dia você me chamar, eu atravesso oceanos. Se um dia cair, eu destruo quem te derrubou.
Se um dia precisar de um coração... pegue o meu. Porque descobri tarde demais que ele nunca foi meu. Foi seu desde o instante em que uma menina de cabelos prateados apertou o meu dedo com a mão pequena.
Você não foi a mulher que eu amei. Foi a mulher que me condenou a amar.
Independente de onde esteja... Eu vou continuar carregando você dentro do meu peito. Porque o que quer que exista aqui dentro, sempre foi seu.
Mesmo antes de eu entender o que significava perder. Mesmo antes de você aprender a dizer meu nome. Mesmo antes de nós dois destruirmos um ao outro.
Para sempre seu, Dominic Ferraro. ))))))
***
As últimas palavras da carta pareceram sugar o resto de oxigênio que existia naquele quarto. Os meus dedos perderam totalmente a força, os músculos dos meus braços cederam e as duas folhas de papel deslizaram do meu colo, caindo suavemente sobre o colchão.
O meu coração batia tão descompassado e violento que a pressão fazia a cicatriz do meu pescoço repuxar e latejar em uma agonia quente. Os meus joelhos fraquejaram, escorreguei pela beirada da cama e caí de joelhos no chão frio de madeira, desmoronando em posição fetal.
Abaixei a cabeça e comecei a bater a testa repetidamente contra a lateral da cama, um movimento mecânico, desesperado e brutal. Eu batia a cabeça para tentar calar o barulho das verdades que ele tinha acabado de jogar na minha cara.
A minha traqueia arranhou quando o primeiro soluço seco e mudo subiu pelo meu esôfago, rasgando a minha garganta por falta de umidade. Eu tentei chorar. Implorei para o meu corpo me dar o alívio de uma única lágrima, mas os meus olhos continuaram completamente secos, ardendo com o sal de um pranto que não existia mais. Eu estava bizarramente desidratada. Não havia água em mim; havia apenas um deserto de depressão e uma saudade doentia que fazia cada osso do meu corpo doer fisicamente.
Enterrei o rosto no tecido da colcha, abafando os meus gemidos de dor, sentindo o gosto amargo do Bourbon misturado à bile que subia na minha boca. Eu queria odiá-lo com todas as forças da minha linhagem. Queria rasgar aquelas duas páginas em mil pedaços e fingir que Dominic Ferraro era apenas um erro que eu apagaria. Mas no chão daquele quarto isolado, no meio da madrugada, a verdade humilhante era que a minha alma pertencia à dele muito antes de ele me sequestrar.
Tudo fez um sentido doentio e absoluto. Dominic Ferraro passou cada segundo sob o mesmo teto que eu sibilando promessas de destruição, garantindo que ia me quebrar, me esquartejar e me devolver em pedaços para o meu pai. Mas ele nunca moveu um único dedo para me ferir de verdade. Nem um milímetro.
O meu corpo doía como se eu tivesse sido atropelada. Minhas costelas latejavam, as pernas pesavam e a minha cabeça parecia prestes a explodir, esmagada por uma pressão interna insuportável. Senti como se mãos invisíveis estivessem torcendo as minhas entranhas.
Mas por trás de toda aquela dor física, uma onda de alívio avassaladora inundou as minhas veias.
Ele me também me amava. Ele nunca me disse. Mas agora eu sabia ele me amava.
Arrastei o meu corpo para cima, esticando os braços trêmulos até alcançar o colchão. Enrosquei os dedos nas folhas e as puxei para mim. Prendi o papel amassado contra o meu coração com as duas mãos, como se tivesse medo de que, se soltasse, aquela verdade desaparecesse.

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