POV/ ALESSIA LOMBARDI
A porta lateral da varanda foi aberta com um tranco pesado, fazendo o trinco de ferro estalar contra a madeira. Um homem alto, de ombros largos e braços marcados por calos grossos de treino, entrou na sala. Era Kauan. O primo que costumava me pegar pelos braços no breu dos galpões úmidos para me ensinar a estraçalhar a traqueia de um homem.
Esqueci a marra Lombardi por um segundo. Corri na direção dele com os passos pesados. Kauan não apenas esticou os braços; ele fechou as duas mãos imensas na minha cintura, segurou-me firme e me jogou para cima, suspendendo meu corpo no ar como se eu ainda pesasse o mesmo de dez anos atrás. Meus pulmões soltaram o ar de uma vez no impacto contra o peito dele, que cheirava a óleo de armamento, diesel e suor técnico.
— Me solta, seu idiota! Eu não sou mais criança! — sibilei entre dentes, mas minha garganta apertou com uma vontade violenta de chorar.
Eu estava rindo, mas as minhas costelas doíam pelo aperto protetor. Kauan me colocou no chão devagar, mantendo as mãos nos meus ombros enquanto inspecionava meu rosto com uma preocupação genuína de irmão de armas.
— Você está bem, prima? Está inteira? — a voz dele saiu grossa, os dedos calejados apertando a minha pele.
— Estou mais forte do que você, Kauan — brinquei, limpando o rastro das lágrimas com as costas da mão e estendendo os punhos para mostrar os nós dos dedos calejados. — O cativeiro me deu um treinamento bruto. Você não conseguiria replicar o que eu aprendi naqueles galpões, nem se tentasse.
Kauan soltou uma risada curta, o semblante tenso relaxando por um segundo.
— É o que vamos ver na linha de treino mais tarde, então — ele piscou, batendo de leve no meu queixo.
O almoço seguiu em um clima estranhamente civilizado, mas o peso da minha nova realidade cobrava o preço a cada garfada. Lucca falava sem parar sobre as novidades das rotas de Palermo, gesticulando com o garfo, tentando parecer o homem de negócios que nunca seria. Kauan soltava piadas rudes sobre a segurança da fronteira e os carregamentos apreendidos. Por algumas horas, o meu peito relaxou e eu consegui rir de verdade. Não era o riso forçado para agradar ao Dominic ou para testar os limites da faca dele; era a sensação física e quente de estar cercada por rostos familiares, sentindo o sangue Lombardi pulsar em um ambiente que eu conhecia desde o berço.
Porém, o comportamento da minha mãe me incomodava, descendo como um nó cego direto para a boca do meu estômago. Ela estava silenciosa demais. Séria, magra, as clavículas marcadas demais sob o tecido do vestido escuro, e mantinha um olhar distante que evitava o meu pai a cada segundo. Ela mal tocava na comida.
Mais tarde, quando os homens se levantaram e saíram para inspecionar os cavalos e o perímetro da fazenda com Jonas, o silêncio da casa se tornou um fardo. Esperei que eles cruzassem o pátio e consegui ficar a sós com ela no quarto menor dos fundos. Minha mãe estava sentada na ponta da cama de solteiro, encarando a parede. Sentei-me ao lado dela e puxei a mão dela para o meu colo, sentindo os dedos dela frios e trêmulos.
— Mãe, o que está acontecendo aqui? — perguntei, a voz baixando para um sussurro. — Por que você está com essa cara? Por que está tão magra? Parece que vai sumir.
Minha mãe soltou um suspiro longo, as pálpebras pesadas caindo enquanto seus olhos azuis e cansados fixavam-se nas próprias unhas.
— Eu estava tentando engravidar de novo, Alessia — ela confessou, as palavras saindo em um som arranhado, quase inaudível.

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