POV: ALESSIA LOMBARDI
Passei a noite inteira encolhida naquela janela fria, trocando mensagens curtas com Heloíse Moretti. Eu não pedi ajuda, não revelei que estava na Austrália e não contei sobre os t***s ou sobre estar presa. Ocultar a minha localização exata era uma questão de segurança tática. Minha cabeça estava fria. Não havia o que fazer agora a não ser esperar o Conclave acontecer no dia trinta. Meu futuro seria decidido lá no chão da Itália, e tudo o que eu podia fazer era manter as aparências, não irritar o meu pai e torcer internamente para que o Dominic ganhasse a guerra. Eu não tinha pressa de fugir dali por conta própria. O Dominic escreveu na carta que viria atrás de mim, e eu acreditava nele. Eu só precisava conversar com uma amiga de verdade, saber como as coisas estavam e ter um rastro de normalidade.
Alessia Lombardi: Vou sempre te atualizar das novidades.
Heloíse Moretti: Eu também vou. A Maitê já está de 7 meses, a barriga está enorme e já temos até a data prevista para o nascimento dela. O Conclave vai acontecer e eu te aviso quando o Dominic ganhar.
Alessia Lombardi: Estou com saudades dele. -- confessei, sentindo o peito apertar.
Heloíse Moretti: Eu sei. 😉
Alessia Lombardi: Não conte a ninguém, por favor, sobre as nossas trocas de mensagens...
Heloíse Moretti: Não vou.
A promessa dela brilhou na tela, curta e realista, antes de a bateria do flip ameaçar apagar de vez.
Fechei o aparelho e o escondi sob o cano da bota, encarando o céu escuro através do vidro poeirento. Eu estava em uma gaiola de ouro e sangue, do outro lado do mundo, mas enquanto eu sentia o lábio cortado latejar, a faísca selvagem que o Dominic Ferraro acendeu na minha pele continuava viva.
****
Mais dias se passaram. Cada dia se transformava em um exercício de arrastar os pés pela casa, sem poder fazer nada além de assistir à televisão, comer e ver o tempo passar lentamente. Eu tentava manter a mente firme, seguindo a rotina rígida de treinos que o Kauan montou para mim; treinávamos de madrugada, no breu, antes de o sol nascer para ninguém da guarda saber ou desconfiar.
Meu peito doía e a saudade a cada dia aumentava mais e mais. Era uma agonia física, constante, uma saudade doentia que me puxava de volta para a Sicília a cada segundo. Eu sentia falta do Dominic. Sentia falta do Canário, da Siena, daquela casa enorme, até do Lorenzo e daquela cara rabugenta dele eu sentia falta. E, óbvio, sentia uma falta imensa do Cassian. A imagem do menino tímido, engraçado e sorridente, tomando sorvete, me perseguia. Eu tinha me afeiçoado àquele garoto de um jeito que não conseguia explicar para mim mesma.
No final da tarde, sentei-me nos degraus de madeira da varanda dos fundos. Peguei um pote com doce de leite que a Judite tinha feito e comecei a comer em silêncio, observando o horizonte de eucaliptos estáticos e o céu mudando de cor. O som de passos firmes esmagando a grama quebrou o silêncio. Meu pai se aproximou devagar, as mãos enfiadas nos bolsos da calça social. Ele parou exatamente ao meu lado, a silhueta pesada bloqueando o resto do sol.
— Como você está? — ele perguntou, a voz saindo mais mansa.
— Eu estou bem. Aceita? — perguntei, estendendo o pote e oferecendo a ele um pouco do doce.
— Não, obrigado — ele recusou com um aceno curto de cabeça, mantendo os olhos no horizonte. — Você está se sentindo em casa?
Queria dizer que não, que aquele lugar parecia um confinamento, mas eu não podia. Apenas acenei positivamente com a cabeça, enfiando uma colherada generosa de doce de leite na boca para evitar mais perguntas.
— Como foi... viver lá entre os Ferraro, Alessia? — ele perguntou, a voz saindo num tom baixo que ele claramente tentou amaciar.
— Foi bom, pai — respondi, sem desviar os olhos do pote de vidro, a voz seca. — Quer dizer, não foi tão ruim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Virgem Roubada pelo Mafioso Psicopata :CONTRATO DE SANGUE