POV: ALESSIA LOMBARDI
Leopoldo soltou o ar pelo nariz, cruzando os braços.
— Eu conhecia o Rocco Ferraro, Alessia. Nós éramos melhores amigos desde crianças. Naquela época, ele comandava o tráfico de drogas e armas, arrebentando com tudo ali na região, e a nossa família comandava os portos e toda a estrutura por onde a mercadoria dele chegava. Na máfia, o poder vai passando de família para família, mas o nosso negócio ainda não era gigante. Então o Rocco criou a Fratellanza. Todos começaram a trabalhar para ele, e ele me chamou para ser o seu homem de confiança, o seu Consigliere. Nós éramos irmãos de sangue.
— Melhores amigos?
— Sim, mais que isso.
— E o que mudou? — perguntei, fingindo confusão, tentando pescar mais detalhes.
— Nós tivemos algumas divergências sérias no passado — ele respondeu, a voz descendo para um tom gélido.
— Que divergências? — insisti, olhando fixamente para ele.
— Alessia, só existem três coisas que fazem dois homens tentarem se cortar até a morte: dinheiro, poder ou mulher.
— Aposto que foi o poder? — arrisquei, arqueando a sobrancelha.
— Não. Na verdade, uma mulher — ele assentiu, os olhos fixos no escuro que começava a tomar conta do jardim. — Muito tempo atrás, eu me apaixonei perdidamente por uma moça. Mas ela não me quis. Ela preferiu ficar com o Rocco.
— A mãe do Dominic e do Lorenzo? — disparei, sentindo meu coração acelerar.
— Sim. Infelizmente — ele respondeu, o tom de voz ficando pesado.
— Mas o que aconteceu? — apertei os dedos contra o joelho, curiosa.
— A vida segue, minha filha. Mesmo com o peito rasgado, eu aceitei a situação porque ele era o meu líder e meu melhor amigo. Logo depois, através de uma situação que não convém explicar agora, conheci a sua mãe e fiquei com ela. Mas o Rocco mudou com o tempo. Ele era psicopata, mas com o tempo ele se tornou mais cruel, tinha um prazer doentio em matar e torturar pessoas por puro capricho. A própria esposa dele sofria coisas horríveis nas mãos dele, vivia com medo. Houve um tempo em que ela me pediu ajuda.
— E você a ajudou? — olhei para ele, genuinamente confusa com aquela teia.
— Eu ajudei, e em troca ela me ajudou — ele sorriu de forma sombria, os dentes brilhando na penumbra da varanda. — Ela era tão linda, tinha olhos tão bonitos. Eu teria iniciado uma guerra por ela. Mas ela preferiu ficar com ele e morrer com ele.
— Sinto muito, pai... — murmurei, engolindo o seco, sem saber se era aquilo que tinha que dizer. Senti os pelos dos meus braços arrepiarem com o tom dele. — E isso tem a ver com o assassinato do Rocco?
Meu pai limpou o suor da testa, a respiração ficando mais curta.
— Sim. O mundo é dos mais fortes, Alessia. O leão mais forte é aquele que ataca primeiro, pegando os inimigos desprevenidos. Entre ser o cordeiro e o leão, eu escolhi o ataque. Aqueles portos de Palermo que os Ferraro controlavam e que agora nos tomaram de volta, sempre foram da família Lombardi. O Rocco pegou a estrutura inteira para ele no início porque precisava expandir o esquema de escoamento, mas com o tempo, a psicopatia dele foi piorando. Ele foi ficando cego, cruel, e acabou perdendo o controle do que era nosso por puro capricho. Eu só estava tentando recuperar o que por direito pertencia ao nosso sangue.
Ele ajeitou a postura, estufando o peito.
— Os soldados e os capitães da Fratellanza estavam apavorados com as loucuras e os surtos do Rocco, então eles se uniram e tentaram iniciar uma revolução interna. Eles vieram até mim e me deram um ultimato: ou eu aceitava ser o novo líder deles e comandava o golpe de Estado para retomar o nosso patrimônio, ou eles matariam toda a minha família. Eu não tive escolha. Aceitei para pagar a culpa de um rastro que nem era meu, foi uma consequência. Dei o golpe junto com os homens e destruí o Rocco. Ele estava envolvido em negócios proibidos, sujeiras que não eram boas, e tudo porque era aliado de um dos Moretti na época, que gerenciava o mercado de carga viva. Eu fiz o que fiz para liderar aquela revolução, recuperar o que era nosso, proteger a nossa família e garantir o nosso futuro... e o seu futuro.


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