POV: ALESSIA LOMBARDI
O barulho dos motores dos SUVs pretos cortando o cascalho da entrada me fez levantar da cama num salto. Corri até a fresta da cortina. Meu pai tinha acabado de voltar da cidade. Quando ele saltou do banco traseiro, a postura dele entregava tudo: os ombros rígidos, o paletó sendo arrancado com um puxão brusco e o semblante completamente fechado. A reunião com o Killian Moretti não tinha saído como ele queria.
Não demorou cinco minutos para que a voz do Lucca ecoasse no corredor, me chamando até o escritório principal. Quando entrei, o ar ali dentro pareceu rarefeito. Meu pai estava de pé, de costas para a porta, encarando os mapas sobre a mesa de mogno com os nós dos dedos apoiados na madeira.
— Sente-se, Alessia. — Leopoldo comandou, sem se virar.
Permaneci de pé, cruzando os braços e sustentando o olhar quando ele finalmente girou o corpo na minha direção.
— O Moretti deu o ultimato. Killian agora é o Capo Supremo e age como se o mundo estivesse na palma da mão dele. Ele exigiu uma coisa ridícula, uma humilhação que eu fui obrigado a engolir de cabeça fria.
— O que ele quer, pai? — perguntei, sentindo meu coração acelerar contra as costelas.
— Ele quer você na Itália. Killian exigiu que a herdeira da Fartalle assista ao Conclave presencialmente. Ele quer usar a sua imagem na arena para mostrar ao mundo, aos jornais e a todas as outras famílias que os Ferraro e os Lombardi estão em trégua sob a bandeira Moretti. Quer fazer um teatro de paz usando o seu rosto.
Senti um soco de adrenaline direto no estômago. Itália. Conclave. Dominic. A chance de sair daquele confinamento na Austrália e respirar o mesmo ar que o homem que eu amava estava bem ali, diante de mim. Mas eu conhecia o meu pai. Vi o jogo psicológico se desenhar nos olhos dele quando ele aproximou-se com passos lentos.
— Eu disse não, é claro. É perigoso demais. Eu não quero que você vá, minha filha. Você acabou de voltar daquele cativeiro selvagem, a Sicília está um caos e colocar você no meio daquele covil de lobos é assinar a sua sentença.
— Não! Eu quero ir, pai! — bati o pé firmemente contra o chão de madeira, dando um passo à frente, deixando o desespero guiar as minhas palavras. — Eu preciso ir. Eu aguento o Conclave. Faço qualquer coisa, me comporto, ando de cabeça baixa, sigo todas as suas regras, mas não me deixe trancada neste fim de mundo enquanto o destino da nossa família é decidido. Me deixa ir!
Meu pai estreitou os olhos, fingindo ponderar a minha súplica. Ele suspirou pesado, passando a mão pelo rosto, simulando que estava cedendo apenas pelo meu bem.
— Eu não tenho o poder necessário para desafiar as ordens diretas do Capo Supremo sem iniciar uma guerra que perderíamos, Alessia. Mas se eu te colocasse em um avião agora... Ninguém saberia.
— Você não faria isso.
— Você duvida? — ele perguntou retoricamente. — Mas se você faz tanta questão de ir... eu posso permitir que você viaje. As coisas podem permanecer em paz com o Moretti, mas eu só coloco você naquele jato com uma condição.
— Qual condição? — apertei as mãos contra o corpo, em alerta.
— Você vai ter que se casar e mudar com seu novo marido. Para a Oceania, talvez.
O chão oscilou sob os meus pés. Olhei para ele, sentindo a garganta travar.
— Por quê? Para que um casamento agora? Oceania?
— Para te proteger. Só para te proteger.
— Isso não faz sentido, pai. Se o Dominic vencer o Conclave e ganhar a Itália, eu não preciso fugir ou me esconder de ninguém!
— Ah, minha filha, não seja boba. Ele não quer você. E mesmo se quiser, você sabe como funcionam casamentos na máfia. Precisa de proposta, parcerias e grana. Muita grana. Eu tecnicamente não tenho interesse em nada que a família Ferraro tenha a oferecer.
— Mas pai... — tentei argumentar.

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