(Um cap. maior para vocês.)
POV: ALESSIA LOMBARDI
Acordei sentindo meu corpo pesado, cortesia da bebida e daquele beijo que parecia uma droga de efeito prolongado; quando acaba, a abstinência vem com tudo, cobrando juros. Não vi Dominic no dia seguinte. Dormi como se tivesse sido dopada até as 16h e encontrei meu almoço já gelado na mesa de cabeceira, um lembrete silencioso da minha nova rotina de prisioneira. Mais tarde, Cassian veio me ver; ele trouxe sorvete e ficamos horas conversando sobre como superar traumas e outras coisas que adolescentes em famílias de máfia não deveriam ter que discutir.
Hoje, segunda-feira, acordei de mau humor para variar. A luz que entrava pela janela de vidro me despertou e eu já me sentia inchada, irritada e com uma vontade genuína de incendiar algo apenas pelo prazer de ver o fogo. Vesti a roupa de treino mecanicamente e, às 7h30, minha porta se abriu. Fechei os olhos por um segundo, ensaiando como agir se fosse Dominic, o que falaríamos ou como ele fugiria de novo. Mas não era ele. Era o Canário. Droga. Por que, no fundo, eu queria que fosse aquele desgraçado? Merda.
Passei na cozinha e encontrei apenas café e pães. Nunca vi ninguém além de soldados e dos Ferraro naquela casa; eu não tenho a mínima ideia de como cozinhar e ninguém parecia disposto a me dar um curso rápido. Não consegui comer muito; meu estômago parecia ter vida própria e estava estranhamente revirado. No pátio, veio a confirmação: Dominic Ferraro fugiu de novo. Ele me beija com a fúria de um animal, me incendeia e depois b**e a porta na minha cara, deixando apenas o rastro do seu perfume maldito e um silêncio covarde.
Canário me acompanhou com sua postura rígida de sempre e o fuzil atravessado no peito, como se eu fosse tentar derrubar a mansão sozinha.
— Cadê o Cassian? E o Lorenzo? — perguntei, tentando ignorar qualquer sentimento que não fosse puro ódio.
— Lorenzo ainda não voltou da capital. Cassian foi para a escola — Canário respondeu sem desviar os olhos de mim, sério e com a postura irritantemente perfeita.
— E o Dominic? — Minha voz saiu mais ríspida do que eu planejava.
— Não faço a mínima ideia, senhorita. Deve estar em algum bar qualquer por aí, resolvendo alguma coisa.
Bufei, sentindo uma onda de irritação subir pela minha garganta. Eu queria gritar até quebrar os vidros daquela casa.
— Eu não posso sair daqui? Tenho que ficar apodrecendo nesta propriedade para sempre? — encarei-o, desafiadora. — Preciso comprar algumas coisas.
Canário me olhou confuso, a mão hesitando sobre a arma.
— Coisas de mulher, Canário! — disparei, sentindo meu rosto esquentar de raiva.
Pensei no meu ciclo. Eu não tinha o aplicativo para monitorar minha menstruação ali, mas meu corpo conhecia o calendário melhor que qualquer tecnologia. Hoje era dia 14. Geralmente, meu ciclo descia lá pelo dia 20 ou 21. Eu tinha cerca de dez dias, mas meu temperamento já operava a 180 quilômetros por hora. Eu precisava de suprimentos, de paz e de algo que silenciasse essa instabilidade que me fazia querer chorar e matar na mesma proporção.
Fui para o saco de pancadas. Cada golpe que eu desferia parecia insuficiente para o tamanho da minha frustração. O couro era duro demais, o ar estava seco demais e a vida era injusta demais. Que ódio. Imaginei a cara de Dominic e aquele sorriso sedutor maldito que ele usava para me desarmar. Bati até minhas mãos ficarem dormentes e a dor física mascarar a emocional. Droga.
— Você está bem, senhorita? — Canário perguntou, aproximando-se quando percebeu que meus movimentos estavam ficando erráticos e violentos.
— Não, eu não estou bem! — gritei, parando o soco no ar, ofegante.
— Calma. Respire... — ele começou, tentando ser útil do jeito dele.
— Não me manda respirar! — rosnei, apontando o dedo para ele como se fosse uma arma. — Nunca me mande respirar.
Abandonei o treino e marchei em direção à cozinha. A mansão estava um mausoléu silencioso e irritante. Abri os armários freneticamente em busca de um milagre. Nada. Nenhuma barra de chocolate, nenhum biscoito, absolutamente nada que prestasse naquela dieta de guerra do Ferraro. Finalmente, no fundo de uma gaveta, achei uma caixa de leite condensado. Cortei a ponta da embalagem com fúria e comecei a comer direto da caixinha, sentindo o açúcar atingir meu sangue e acalmar minimamente os demônios internos. Quando eu ficava assim, meus hormônios não apenas mudavam; eles faziam uma revolução francesa completa. Eu ficava desregulada, perigosa e pateticamente sensível.
Voltei para a sala e encontrei Canário ainda parado perto da porta. Ele me viu com a caixinha de leite condensado na mão e coçou a cabeça, visivelmente confuso com a cena.
— Por favor... fala com o Dominic — pedi, e para o meu próprio horror, senti as lágrimas começarem a embaçar minha visão. — Eu só preciso sair por uma hora. Eu preciso comprar minhas coisas. Vê com ele... se aquele filho da puta me deixa respirar fora desses muros.
Uma lágrima teimosa escorreu e eu a limpei com fúria. Canário pareceu genuinamente desconcertado ao me ver desmoronando por causa de uma simples ida à farmácia.
— Tudo bem, senhorita. Eu vou ver com ele. Fique calma — ele disse, recuando para pegar o celular, claramente querendo fugir daquela instabilidade emocional.
Sentei-me no chão de mármore frio, abraçada ao meu leite condensado, odiando Dominic Ferraro por me deixar presa e odiando ainda mais meu próprio corpo por me fazer chorar na frente de um guarda. O doce era tão intenso que chegava a queimar minha garganta, me forçando a levantar depois para beber quase um litro de água de uma vez.
Canário retornou alguns minutos depois. — O Capo deu autorização. Ele está no bar dele, o L’Inferno, resolvendo algumas questões.

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