POV: DOMINIC FERRARO
O primeiro dia do meu treino com ela começou sob um céu cinzento, pesado como o meu humor. Eu estava decidido a ser o carrasco que ela precisava; se eu a amolecesse agora, ela morreria lá fora, e eu não podia permitir.
— De pé, Lombardi — ordenei. Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, ecoando pelo pátio de pedra. — Hoje vamos focar em retenção de arma e golpes traumáticos.
Ela se levantou, mas vi um certo esforço hercúleo que fez para se manter firme. O movimento foi travado, como se cada osso do seu corpo estivesse sob pressão.
— Você está bem? — quis saber, estreitando os olhos.
— Não finja que se importa. Estou muito bem — rebateu ela, com aquele orgulho que eu tanto odiava amar.
Treinamos por duas horas. Eu a joguei no chão, exigi repetições exaustivas de chutes e ela não reclamou de um único hematoma. Mas o suor no rosto dela era frio e a palidez me incomodava. Quando ela cambaleou após um desvio simples que até um amador executaria, perdi a paciência.
— O que foi isso?! — rugi. — Lorenzo disse que você estava pronta. Se um soldado te pega com essa guarda baixa, você vira estatística em segundos!
— Eu estou... eu estou bem — ela sibilou, mas os olhos verdes estavam nublados, focados no nada.
— Não minta para mim! — Segurei o braço dela e senti sua pele gelada. O pânico, aquele sentimento desconhecido, roçou meu peito. — O que você tem? Tem algum machucado?
Comecei a examiná-la freneticamente, olhando seu pescoço, braços e tentei levantar a blusa dela para procurar algum sangramento que eu tivesse causado no tatame. Mas ela me empurrou com uma força que eu não esperava, me jogando para longe.
— Sai! Não encosta em mim!
— Eu preciso saber o que você tem! — gritei de volta, perdendo o controle, segurando-a pelos ombros e a chacoalhando levemente. — Me diz o que você tem, porra!
— É CÓLICA, DOMINIC! — ela gritou, a voz falhando de puro ódio e cansaço. — São problemas femininos, porra! Meu útero parece que está sendo mastigado por dentro por um tubarão e você agora está gritando na porra do meu ouvido!
Soltei os braços dela instantaneamente. Vi a marca dos meus dedos na sua pele branca e senti um nó na garganta que eu, o homem que comandava exércitos, não sabia como desatar. Útero? Mastigado? Eu sabia lidar com tiros, mas aquilo...
— Então... vai para o seu quarto — gaguejei, sentindo-me o maior idiota da Itália.
— Eu consigo continuar... — Vá para o seu maldito quarto! Descansar, repousar... a gente continua depois — ordenei, tentando recuperar um pingo de autoridade enquanto ela saía bufando e pisando tão alto que eu temia pelo assoalho da mansão.
Fiquei parado no meio do pátio, olhando para as minhas mãos. O que eu deveria fazer? Mandar um médico? Se eu chamasse um cirurgião por causa de uma cólica, Lorenzo riria de mim por décadas. Peguei o celular e liguei para a única mulher que eu sabia que não a trataria como mercadoria e que entendia dessa... biologia complicada.
— Siena?
— Quem é? — a voz do outro lado soou desconfiada.
— Sou o Dom. O de "olhos coloridos", como você diz.
— Ah! O cara mal com cara de modelo. Peraí... como você tem meu número, seu maníaco?
— Eu sou eu. Eu tenho tudo o que eu quero.
— Sei, sei... olha, eu não fiz nada de errado, tá?
— Estou ligando porque preciso de ajuda — interrompi, massageando as têmporas. — A minha mulh... digo, a Alessia... ela está com problemas femininos. Algo sobre o útero ser mastigado e dor de cabeça. Poderia me ajudar? Não sei o que fazer.
Houve um silêncio de dois segundos antes de Siena soltar uma gargalhada tão alta que precisei afastar o celular do ouvido. Depois de gargalhar e debochar, ela respondeu:
— Eu vou providenciar um "kit de sobrevivência". Você vem buscar ou eu levo? E aliás, onde é que você mora?
— Vou mandar um segurança buscar você. Compre tudo o que for necessário. Remédios, bolsas térmicas, o que for. Vou mandar o meu cartão por ele, use para o que precisar e pode comprar o que você quiser para você também como pagamento. A senha é 1, 2, 3, 4.
— 1, 2, 3, 4? Sério? Você é um criminoso ou uma criança de cinco anos? — ela debochou, ainda rindo. — E como você sabe onde eu moro?
— Não se preocupe, Siena. Não tem nada que eu não saiba ou não dê um jeito. Esteja pronta em duas horas. E você vai dormir aqui, então venha preparada.

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