POV/ ALESSIA
Passamos o resto do dia ali. Fomos para a borda da água. Dominic abriu a mochila e tirou sanduíches e frutas. Comemos sentados na pedra, sentindo o sol secar nossos corpos. Brincamos de mergulhar, subimos nas pedras e pulamos de novo. Ele me beijou mais oito vezes. Foram beijos lentos, sem a urgência de antes. Por algumas horas, fingimos que éramos um casal normal em um feriado qualquer. Eu não queria falar de máfia, de morte ou de traição. Eu só queria ser a Alessia daquele momento.
Quando o céu começou a ganhar tons de laranja, ele me ajudou a subir os degraus de terra. Fizemos o caminho de volta para a mansão no mesmo silêncio cúmplice. Chegamos quando já estava escurecendo.
— Vou subir. Preciso de um banho — eu disse, parando na base da escada. — Eu também — ele respondeu, me analisando. — Mais tarde eu vou até o seu quarto.
Meu estômago deu um salto. A ansiedade subiu pela minha garganta. Apenas assenti e subi os degraus, sentindo o olhar dele queimando minhas costas.
Entrei no banho e demorei. Lavei meu cabelo, hidratei a pele e passei meu melhor perfume. Eu estava eufórica. Eu já estava criando uma fanfic mental, sentindo que finalmente fazia parte da família Ferraro.
Quando saí do box, me enrolei na toalha e fui me preparar, mas ele já estava lá. Dominic estava sentado na minha cama, imóvel.
— Oi... você já está aqui? — Sorri para ele. Um sorriso bobo, automático. — Eu vou vestir uma roupa... ou melhor não?
Sacudi a cabeça, tentando afastar o pensamento óbvio, mas eu estava confusa e feliz. Sorri de novo, mas o sorriso dele em resposta foi diferente. Era um sorriso triste, carregado de algo que eu não soube identificar. Antes que ele falasse qualquer coisa, eu o atropelei.
— Meu segundo desejo — falei, antes que ele pudesse abrir a boca. — Quero ver você lutar no dia 10. Fiquei sabendo da eliminatória e eu quero ir. Por favor.
— É perigoso. O pátio vai estar cheio de soldados, sangue e líderes de outras gangues. Não é lugar para você.
— É o meu desejo, Dominic. Eu quero ver como você se sai. Quero torcer por você.
Ele suspirou. Levantou-se da cama e encostou no batente da porta, parecendo exausto.
— No dia 10, os chefes das famílias se reúnem para uma eliminatória brutal. Só o mais forte, o que sobrar de pé, ganha o direito de representar o distrito no Conclave. É política feita com punhos e facas. Se eu perder, os Ferraro perdem a voz perante todos os Capos da cúpula principal.
— Você não vai perder — afirmei, dando um passo na direção dele. — Por isso eu quero estar lá. Quero torcer por você.
Eu queria que todos vissem que eu pertencia a ele. Dominic me olhou de cima a baixo. Ele ia lutar pela família, e eu, estupidamente, já me sentia parte dela também.
Ele acenou levemente com a cabeça, aceitando o desejo.
— Eu preciso te falar uma coisa. Antes.. — ele disse. O tom era sombrio.
— Então fala — respondi sorrindo. Meu sorriso morreu no segundo seguinte.
Dominic não sorriu de volta. Ele não me olhou com o desejo de antes; ele parecia ter envelhecido dez anos em uma hora. Ele caminhou até a cama e se sentou novamente, mantendo os olhos fixos na parede, fugindo do meu rosto.
— O que foi? O que aconteceu? — senti um nó apertar minha garganta.
— É difícil — ele começou, a voz tão baixa que quase sumiu. — Mas é necessário. Eu falei com o seu pai. Fechamos o acordo. Ele me deu tudo o que eu queria: território, rotas, dinheiro.
Ele finalmente virou o rosto para me encarar. O olhar estava morto.
— Eu não preciso mais de você.
O ar sumiu dos meus pulmões. O mundo que eu estava construindo na minha cabeça, peça por peça, desmoronou em silêncio.
— O que? ... Quando? — Minha voz saiu em um sussurro quebrado.

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