POV: DOMINIC FERRARO
Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. O silêncio no escritório era denso, cortado apenas pelo estalar do charuto de Lorenzo. Senti meus músculos tensos, as fibras do meu pescoço saltando como cordas de aço.
— Escuta bem. O acordo com Lombardi está fechado. Ele assinou tudo. Devolveu os territórios, os portos e as rotas. Certo?
— Sim, e está tudo aqui — Lorenzo apontou para a pasta com um desdém contido. — Recuperamos o que é nosso. Mas o preço dele foi a filha. Ele a quer de volta em poucos dias.
Lorenzo soltou um riso seco, a fumaça saindo em lufadas rápidas.
— E você vai devolvê-la?
— Vou. Vou devolvê-la porque sempre foi o plano. Só que, ao invés de quebrada, vou devolvê-la mais forte.
— Isso eu já percebi — ele me olhou fixamente, os olhos estreitos como fendas. — Mas o que você não está contando? Acho que já imagino.
Apenas acenei com a cabeça, sentindo o maxilar travar com tanta força que meus dentes molares rangeram.
— Me responde uma coisa — Lorenzo continuou, a voz ficando mais perigosa. — Depois de doze anos planejando a morte daquele desgraçado, imaginando como destruí-lo através da filha, você vai simplesmente devolvê-la intacta? E o plano de trocar a vida dela pela dele e depois matarmos o porco... ainda vai seguir isso?
— Eu não posso matar o Leopoldo agora! — Minha voz subiu, explodindo de um lugar escuro que eu não conseguia controlar. — Por mais que eu queira, por mais que eu anseie por isso... agora eu não consigo.
— Porque o monstro — Lorenzo me interrompeu, estalando os dedos na frente do meu rosto — descobriu algo que quer mais. Aliás, muito mais do que vingança. Acertei?
— Sim... — respondi, virando o resto do uísque. O líquido queimou, mas o fogo dentro do meu peito era maior.
— Cadê o maníaco psicopata que eu chamava de irmão? O cara que disse que ia quebrá-la, marcá-la e usar o corpo dela para atrair o Lombardi para o abatedouro? Eu olho para você e não te reconheço, Dominic.
Aquelas palavras reviraram meu estômago. O incômodo foi físico, uma náusea que subiu pela garganta. Ele estava certo. Eu não me reconhecia.
— Você está amolecendo, Dominic. Está ficando frouxo! — Lorenzo sibilou, levantando-se em um salto. — Estamos falando do homem que destruiu nossa mãe, matou nosso pai e nos jogou no esgoto. E você está abrindo mão da vingança por causa de uma Lombardi que você nem possuiu ainda?
O ruído na minha cabeça aumentou para um zumbido ensurdecedor. Foi o estopim.
— VOCÊ ACHA QUE EU NÃO SEI?! — Gritei.

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