POV Isadora
A casa nova ainda não parecia uma casa. Entre caixas abertas, pilhas de roupas emboladas e móveis que só existiam no papel dos catálogos, o ar estava cheio de expectativas e pó de mudança.
A cada passo pela sala vazia, o eco dos meus passos lembrava que ainda havia muito a ser feito, mas, de alguma forma, aquilo era perfeito. O vazio trazia paz. Era uma nova vida, começando do zero, e pela primeira vez eu não tinha medo disso.
Foi quando o celular vibrou ao meu lado, no chão, em cima de uma caixa improvisada de mesa de centro. Olhei quase sem atenção, esperando alguma mensagem da médica ou até de Olivia, mas o nome que surgiu na tela me fez gelar. Leyla Torres.
Por um instante, achei que meus olhos estavam pregando uma peça.
Leyla tinha sido uma parte tão viva da minha adolescência, alguém que conhecia cada detalhe meu, desde sonhos bobos até segredos que nunca tive coragem de dividir com mais ninguém. Mas a vida nos afastara.
Anos sem contato, sem notícias. E agora, de repente, ali estava: uma notificação piscando com o nome dela.
A mensagem era simples, mas carregada de um peso inesperado: "Isa, estou de volta à cidade. Sinto tanta falta de você. Gostaria muito de te ver. A gente tem tanta coisa para colocar em dia."
Segurei o celular com as duas mãos, sentindo uma pressão estranha no peito. Eu não sabia como responder. Minha vida já estava cheia de coisas demais.
A gravidez, os olhares da imprensa, a necessidade constante de me reconstruir. Parte de mim queria ignorar, deixar o passado quieto.
Mas outra parte, a mais vulnerável, se agarrou à lembrança das tardes de verão em que nós duas ríamos de bobagens, sentadas na calçada, sonhando com futuros que pareciam impossíveis.
Demorei alguns minutos para digitar, apagar e reescrever, mas no fim respondi: "Oi, Leyla. Que surpresa! Claro, podemos nos ver. Quando quiser."
Poucas horas depois, ela já tinha escolhido um café charmoso no centro da cidade, um lugar com cheiro de bolo recém-saído do forno e mesas cobertas por toalhas floridas.
Quando cheguei, confesso que estava nervosa. A última vez que tinha visto Leyla, éramos apenas meninas, ainda acreditando que a vida nos devia finais felizes.
Mas quando ela entrou no café, senti como se o tempo tivesse feito um círculo completo. Leyla estava radiante. Cabelos escuros soltos em ondas perfeitas, sorriso largo, olhar caloroso. Ela abriu os braços e me envolveu em um abraço apertado, que por um segundo me transportou de volta à adolescência.
— Isa! — ela exclamou, a voz carregada de emoção. — Eu não acredito que estou te vendo de novo. Você está… diferente. Mais linda, mais forte.
Senti minhas bochechas corarem. — Ah, Leyla… você também. Está maravilhosa.
Leyla inclinou a cabeça, apoiando o queixo nas mãos. — Talvez as duas coisas não sejam tão diferentes assim. Sua vida, Isa, sempre foi intensa, sempre cheia de fogo. Você não percebe, mas inspira as pessoas.
Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo suas palavras. De fato, depois de tudo o que tinha acontecido, eu já não era a mesma. Mas ainda era difícil acreditar que inspirava alguém, quando muitas vezes só me sentia cansada.
Conversamos por mais de uma hora. Entre risos, recordações e confissões leves, parecia que eu tinha reencontrado uma parte de mim mesma que estava adormecida.
Quando nos despedimos, senti um calor no peito, como se tivesse ganhado uma amiga de volta.
— Vamos repetir isso logo, Isa. — ela disse, segurando minhas mãos com firmeza. — Agora que voltei, não vou mais deixar você escapar.
— Claro, Leyla. Vai ser ótimo. — respondi, sorrindo.
Enquanto ela se afastava pela rua iluminada, algo dentro de mim murmurou um aviso silencioso. Havia algo naquela alegria toda que parecia… ensaiada demais.
Mas eu calei essa voz interior. Preferi acreditar na lembrança da amiga que eu tinha amado na juventude. Afinal, depois de tantas traições e dores, talvez eu realmente merecesse alguém ao meu lado que não me julgasse, que simplesmente quisesse estar comigo.

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