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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 185

POV Célia Montenegro

A casa dos Montenegro sempre fora assim: grande demais, fria demais, cheia de histórias que preferiam ser esquecidas. Hoje, porém, ela parecia… satisfeita. Como um monstro que acabara de se alimentar.

Heitor já havia saído para o trabalho. A passos pesados, olhar abatido, cheiro de ressaca e remorso. Eu o observei do alto da escada enquanto ele passava pela sala, tentando fingir normalidade, e senti uma paz quase maternal.

Quase.

Ele estava quebrado. E um homem quebrado é muito mais fácil de moldar.

Entrei no meu escritório, um santuário de madeira escura, cheirando a tabaco e papel antigo. Fechei a porta e o som do mundo ficou do lado de fora. A escrivaninha me esperava, impecável, com meus cadernos de anotações e as correspondências abertas. Eu nunca deixava nada fora do lugar. O caos mora nas pessoas; nos objetos, ele é inaceitável.

Servi-me de café e sentei. Cruzei as pernas.

Observei, por um longo instante, o reflexo da janela. Minha própria imagem devolveu o olhar, o rosto imutável, os cabelos presos com precisão, os olhos tranquilos demais para uma mulher que acabara de destruir mais um elo familiar.

Mas era necessário. Sempre foi.

Leyla, pobre menina, ainda estava trancada no quarto. Eu a ouvi chorando antes do amanhecer, abafado, contido, o tipo de choro que carrega mais vergonha do que dor.

E, de certo modo, eu a compreendia.

Não era ódio que eu sentia por ela. Era pena.

Pena e, talvez, uma pontada de inveja. Porque Leyla ainda acreditava no amor, ainda se deixava ferir por ele. Eu aprendi cedo demais que o amor é uma moeda: quanto mais você gasta, mais o outro ganha poder sobre você.

E poder, esse sim, é o verdadeiro afeto do mundo.

Abri o caderno de capa preta e anotei algumas observações: "Heitor — emocionalmente instável. Receptivo à culpa. Distância necessária por alguns dias. Leyla — vulnerável. Possível peça de controle. Isadora — ausência ainda funcional. Fantasma útil."

Fechei o caderno devagar. A ponta da caneta ainda riscou o papel, como se o próprio objeto se recusasse a aceitar que a reunião acabara.

A lembrança de Isadora ainda pairava sobre tudo, sobre ele, sobre Leyla, até sobre mim. Eu nunca gostei dela, é verdade. Tinha aquele brilho moralista que as pessoas fracas chamam de “luz”. Um tipo de inocência que irrita porque nos obriga a lembrar o quanto fomos corrompidos.

Mas Isadora tinha algo que eu sempre admirei: ela conseguia mexer com o filho que eu nunca consegui alcançar.

Heitor herdou de mim a mente. Fria, analítica, calculista. Mas o coração… o coração ele enterrou com ela.

Eu o avisei. Disse-lhe, ainda nos tempos da faculdade, que certas mulheres são como navalhas envoltas em seda. Ele riu, chamou-me de exagerada. E agora olha onde estamos, ele se afogando em arrependimento, e eu recolhendo os pedaços.

Tomo outro gole de café. O gosto amargo é perfeito.

A porta se abre devagar. A voz hesitante de uma das empregadas ecoa:

Capítulo 185 — "Tudo está saindo conforme o previsto." 1

Capítulo 185 — "Tudo está saindo conforme o previsto." 2

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