POV Isadora
O som do mar ao longe era quase um mantra, embalando a manhã preguiçosa que se espalhava pela casa. A brisa entrava pela varanda, leve, trazendo o cheiro de sal misturado ao aroma do café que Dante preparava na cozinha.
Sofia dormia sobre o meu peito, os dedinhos minúsculos agarrados ao tecido da minha blusa como se o mundo inteiro coubesse ali, entre o calor do meu corpo e o bater calmo do meu coração.
Ela era tão pequena. Tão perfeita. De vez em quando, soltava um som baixinho, um suspiro, um meio sorriso inconsciente que fazia meu peito doer de amor.
— Ela é a cópia sua. — a voz de Dante soou perto, baixa, quase um sussurro reverente.
Quando olhei, ele estava encostado no batente, caneca nas mãos e aquele olhar que sempre me desmontava, o de quem achava que eu e ela éramos um milagre particular.
— A cópia da calma, talvez. — murmurei, sorrindo de canto. — Porque o resto é todo seu.
Ele se aproximou, sentou-se na beira da cama, observando Sofia com a atenção de quem via algo sagrado. Passou o dedo pelo pezinho dela, e ela se mexeu, franzindo o rostinho, antes de se ajeitar de novo no meu colo.
— Você percebe que ela confia em você de um jeito que ninguém mais no mundo vai confiar? — ele disse, com aquele tom de quem pensava alto. — Tipo... ela dorme tranquila porque sabe que você existe.
Meu coração apertou. Dante sempre teve essa forma poética e dolorosamente real de ver as coisas.
— E ela confia em você pra ser o herói dela — respondi. — Mesmo sem saber o que isso significa ainda.
Ele sorriu, mas o sorriso veio melancólico. Se inclinou e beijou a testa da filha.
— Eu vou ser. Prometo.
Ficamos ali, os três, envoltos naquele silêncio morno e cheio de vida. O tempo parecia diferente desde que ela nasceu, mais lento, mais precioso. Cada gesto era uma lembrança em construção: o primeiro bocejo, o olhar curioso, o toque da mãozinha dela nos nossos dedos.
Mais tarde, estávamos na sala. A casa ainda cheirava a tinta nova e a mar, o som suave das ondas chegando de longe. Dante balançava Sofia no colo, andando de um lado pro outro, murmurando qualquer melodia que ele inventava na hora.
Eu observava, com o coração derretendo. Aquele homem que antes vivia cercado por poder, decisões e pressões agora parecia completamente rendido a um ser de poucos quilos e um olhar sonolento.
— Acho que ela gosta mais de você do que de mim — brinquei.
— Impossível. — ele olhou pra mim com um sorriso de canto. — Eu só sou o balanço. Você é o lar.

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