Catarina e Leon-03
Descobrir que o rapaz do rio era o filho de Leon me causou um choque instantâneo. Mas mantive a calma apesar de tudo e disse:
— Já nos conhecemos no rio.
Leon franziu a testa.
— Como assim?
Matteo respondeu antes de mim.
— A gente se encontrou hoje cedo.
Leon soltou um suspiro cansado.
— Ótimo. Então vocês já foram apresentados.
Matteo continuava olhando para mim daquele jeito atento, observador demais. Aquilo me deixava um pouco desconfortável porque existia alguma coisa curiosa naquele garoto. Talvez porque ele parecia diferente do que Leon descrevia: mais ousado, mais intenso.
Antes que alguém dissesse mais alguma coisa, passos surgiram no corredor e uma garota apareceu na entrada da sala. Ela tinha cabelos lisos, longos e escuros, olhos delineados de preto e um piercing pequeno no nariz. Vestia um short jeans rasgado e uma camiseta larga de banda de rock. A expressão dela era fechada, quase agressiva.
Os olhos passaram rapidamente por Leon, depois por Matteo… e finalmente pararam em mim. E ficaram ali. Me analisando sem qualquer vergonha.
Leon se endireitou.
— Maia, essa é Catarina, a minha esposa.
A garota arqueou uma sobrancelha.
— Ah… então é ela.
Cruzei os braços devagar. E imediatamente perguntei encarando-a:
— “Ela” quem?
Maia deu de ombros.
— A mulher que fez meu pai esquecer que tem filhos.
O silêncio caiu pesado. Leon fechou os olhos rapidamente.
— Maia, não começa.
Mas eu já sentia meu sangue esquentar.
— Seu pai não esqueceu que tem filhos — respondi calmamente. — Só não vive exclusivamente para eles.
Ela soltou uma risadinha debochada.
— Nossa. Então você também é filósofa, psicóloga... ou o quê?
— E você além de mal-educada é cansativa.
Matteo só observava. Leon esfregou a testa como se já estivesse arrependido daquele encontro e falou tentando acalmar a tempestade que começara entre eu e sua filha.
— Será que todo mundo consegue agir normalmente por cinco minutos?
— Ela começou — Maia respondeu imediatamente.
Olhei diretamente para ela.
— Não. Você começou no segundo em que entrou na sala.
Os olhos dela estreitaram.
— Você acha que porque seduziu meu pai pode falar comigo assim?
Leon bateu a mão na mesa ao lado.
— Maia!
Mas eu já tinha perdido a paciência.
— E você acha que eu ligo para a opinião de uma pirralha como você?
O clima ficou ainda mais pesado. Mas antes que a discussão piorasse, a voz de Nani surgiu da cozinha:
— Almoço pronto! E ninguém vai deixar esfriar porque eu não cozinhei pra santo.
Aquilo quebrou um pouco a tensão. Leon apontou discretamente para a sala de jantar.
— Vamos.
A mesa da sala de jantar era enorme, antiga, feita de madeira escura e pesada. Parecia uma mesa construída para famílias gigantescas, daquelas onde várias gerações se reuniam aos domingos. E naquele momento ela parecia uma grande ponte de separação para quatro pessoas que claramente não sabiam conviver.
Nani serviu a comida enquanto o silêncio dominava tudo. Leon se sentou na cabeceira. Eu fiquei ao lado dele. Matteo na minha frente. E Maia do outro lado da mesa. Eu conseguia sentir os olhos dela em mim o tempo inteiro.
Leon tentou puxar assunto:
— Então, Matteo… como estão as coisas na faculdade?
— Normais.
— Isso não responde nada.
— Então está ruim. Melhorou? — Matteo falou sem nenhuma paciência.
Leon respirou fundo.
— Você ainda está pensando em largar o curso de arquitetura?
— Talvez.
— Você vive mudando de ideia o tempo todo.
— Pelo menos para isso eu tenho liberdade.
A frase tinha endereço certo. Leon endureceu o maxilar.
— Você acha que eu controlo sua vida? Já parou para pensar que o que você chama controle pode ser preocupação com o seu futuro?
— Acho que você controla porque gosta de mandar.
Maia pegou o copo de suco.
— Finalmente alguém falando a verdade. Leon virou o rosto para ela.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO