Catarina e Leon- 02
Eu estava com o celular na mão vendo o nome da ex-mulher de Leon brilhar na tela acesa do aparelho.
— Leon… não atenda!
— Catarina, eu preciso atender.
— Não!
O celular continuava tocando.
— Por favor, Catarina.
Aquele “por favor, Catarina” me atingiu como um tapa. Porque era um pedido para que eu aceitasse aquilo sem questionar. Leon então pegou o celular da minha mão e atendeu.
— Alô.
Me levantei da cama. Ele também se levantou e saiu do quarto. Foi para a varanda. Fiquei parada no meio do quarto sentindo uma raiva quente subir pelo meu corpo. A porta de vidro ficou meio aberta. O suficiente para eu ouvir fragmentos da conversa.
— Não precisava ligar essa hora. Já conversamos sobre isso. Sim, já estou na fazenda. Amanhã vejo isso.
Passei a andar de um lado para o outro pensando na mulher que tinha sido esposa dele antes de mim. E que o abandonou possivelmente por causa de outro homem e mesmo assim ele estava ali tarde à noite falando com ela calmamente como se ela nunca o tivesse traído.
Leon voltou alguns minutos depois. Fechou a porta da varanda, me olhou e disse:
— Não começa.
— Não começa? — repeti irritada. — Você sai do quarto para falar escondido com a sua ex-mulher e eu que não devo começar?
— Eu não falei escondido.
Dei uma risada curta.
— Ah, não? Então por que foi pra varanda?
— Porque eu sabia que você ia reagir assim.
— Talvez porque exista motivo!
— Não existe motivo nenhum. E você está exagerando.
Meu sangue ferveu imediatamente.
— Então eu sou maluca?
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
— Catarina, pelo amor de Deus…
— Não usa esse tom comigo.
— Que tom?
— Esse tom de quem está apenas me suportando.
Ele ficou me olhando. E aquilo piorou tudo. Porque Leon tinha uma calma que me enlouquecia. Enquanto eu pegava fogo, ele ficava quieto, controlado. E eu odiava isso.
— Você acharia normal se meu ex-marido me ligasse tarde da noite?
— Você não tem ex-marido.
— Mas se tivesse?
— Dependeria do motivo.
Soltei uma risada sem humor.
— Claro. Sempre existe um motivo perfeito pra ela.
— Catarina, chega!
— Não. Não chega!
Senti meus olhos queimarem de raiva. E talvez de mágoa também. E naquele momento alguma coisa dentro de mim dizia que aquela mulher ainda ocupava espaço na vida dele. E eu não suportava isso.
Virei as costas antes que começasse a falar demais. Fui até o armário e puxei um cobertor. Leon percebeu minha intenção.
— Catarina...
Ignorei. Peguei um travesseiro.
— Catarina, para com isso.
Continuei andando.
— Você vai mesmo fazer drama?
Parei na mesma hora e me virei para ele.
— Drama?
Leon pareceu perceber tarde demais o que tinha dito.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente isso.
Meu peito subia e descia rápido.
— Você sabe o que eu acho engraçado? — falei. — Você age como se eu estivesse errada por me incomodar.
— Porque você está transformando uma ligação em uma tragédia.
— Não é a ligação.
— Então o que é?
Engoli em seco. A verdade quase escapou: o medo, o ciúme, a insegurança absurda que eu odiava sentir. Mas não falei. Porque eu era orgulhosa demais para admitir aquilo.
— Boa noite, Leon.
Passei por ele e saí do quarto.
— Catarina...
— Senhor? — Ele riu.
— Você não é o veterinário novo?
Aquilo pareceu diverti-lo ainda mais.
— Tenho cara de veterinário?
— Tem jeito de alguém que não sabe onde está e que fica olhando o que não deve.
Ele começou a caminhar devagar pela margem. Meu corpo inteiro ficou alerta. Não exatamente por medo. Mas pela estranha consciência da presença dele.
Ele inclinou a cabeça. Agora eu podia vê-lo melhor. Era jovem, de cor parda e seus olhos escuros estavam presos em mim de um jeito descarado demais.
— Talvez eu tenha gostado da cena.
Cruzei os braços dentro da água.
— Você devia aprender educação antes de começar a trabalhar aqui.
Ele riu alto dessa vez.
Saí da água usando apenas calcinha e sutiã molhados. Peguei a toalha e enrolei no corpo enquanto tentava ignorar os olhos dele acompanhando cada movimento meu.
Subi na margem para pegar o vestido e passei por ele segurando firme a toalha.
— Se estiver procurando a sede da fazenda, é só seguir pela trilha principal.
Ele colocou as mãos nos bolsos da calça.
— Obrigado pela ajuda.
Subi a trilha sem olhar para trás. Entrei na casa pela porta lateral e me tranquei no quarto. Desci alguns minutos depois usando um vestido de verão longo e florido.
Antes de entrar na sala, ouvi uma discussão. E uma das vozes era de Leon.
— Você sempre me causando problemas.
— Eu não pedi sua ajuda.
— Mas sua mãe pediu.
— Pensa que quero ficar aqui nesse fim de mundo? Eu tinha minha vida na cidade.
— Sim. Ficando bêbado e atropelando pessoas.
Entrei na sala naquele instante, interrompendo a discussão. Leon respirou, claramente tentando encerrar a discussão antes que eu escutasse mais alguma coisa.
— Depois continuamos isso.
O rapaz virou o rosto na minha direção. E eu o reconheci imediatamente. Era o garoto do rio. Por um segundo, ele apenas me observou; olhar lento, enigmático. Leon passou a mão pela nuca e disse:
— Catarina, esse é Matteo… meu filho.
E se dirigindo ao filho disse:
— Matteo, essa é Catarina, a minha esposa.

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