Catarina e Leon-16
Depois do café da manhã, a casa pareceu recuperar sua rotina habitual. Ou pelo menos uma versão dela. Leon foi para o terreiro dar algumas ordens aos empregados, e Zezé levou Olivia para brincar na sala com seus lápis de cor e a boneca inseparável.
Subi para o quarto logo depois de ajudar Nani a organizar a cozinha. Ela não gostava muito que eu ajudasse, mas eu percebi que era muita coisa para ela. Em breve teríamos que contratar uma cozinheira para deixar Nani livre para as demais ocupações da casa.
Fechei a porta do quarto e olhei ao redor. Quando a cabeça ficava cheia demais, eu procurava fazer alguma coisa para ocupar as mãos: organizar gavetas, dobrar roupas, trocar lençóis.
E naquele momento eu estava reorganizando o armário, uma tarefa completamente desnecessária, mas útil para evitar pensamentos. Tirei algumas blusas da prateleira, dobrei novamente, organizei por cor. Depois achei que a ordem anterior estava melhor e comecei tudo de novo.
Estava colocando algumas camisetas em uma gaveta quando ouvi uma batida leve na porta. Soltei devagar a camiseta que estava segurando e falei:
— Pode entrar.
A porta se abriu e Leon apareceu. Ficamos nos encarando sem dizer nada e aquilo era muito estranho porque aquele era o nosso quarto. Mas agora parecia um território neutro, um lugar onde nenhum dos dois sabia exatamente como agir.
Leon permaneceu perto da porta. Como se estivesse pedindo permissão para entrar.
— Eu não vim aqui te incomodar — ele falou.
— Não está incomodando.
A resposta saiu automática, mas não completamente verdadeira. Porque ele não me incomodava, mas a situação em que estávamos vivendo me incomodava. Leon então, passou a mão pela nuca.
— Eu só vim pegar uma coisa.
— O quê?
— Minha agenda.
— Qual delas?
— A preta.
Pensei por alguns segundos. Depois apontei para a escrivaninha.
— Está ali.
Ele virou o rosto.
— Ah.
Leon caminhou até a mesinha, pegou a agenda e folheou algumas páginas.
— Eu tenho uma reunião na associação daqui a pouco.
— Eu sei.
— Tem algumas anotações importantes aí.
— Certo.
E naquele momento houve um silêncio constrangedor entre nós. A cena era totalmente estranha: Leon segurando a agenda, eu segurando uma pilha de roupas e os dois sem saber o que fazer ou dizer. Era impressionante aquilo. Tínhamos passado anos compartilhando praticamente tudo. E agora uma conversa simples parecia exigir esforço.
Voltei a dobrar as roupas e por algum motivo ele continuou parado. Talvez também não soubesse como encerrar aquilo.
— Está calor hoje — ele comentou.
Levantei os olhos.
— Está.
— A picape que vou usar está com problemas no ar-condicionado. Às vezes funciona, outras vezes não. Talvez precise deixar na oficina. Não sei direito quanto tempo vai levar. Pode ser rápido ou não.
— Se precisar de carona para voltar pode me ligar. Vou buscar você.
— Não sei ainda se vou precisar.
Houve mais silêncio. Enquanto isso eu coloquei uma parte da roupa na gaveta e voltei até a cama para dobrar as outras que ficaram. Leon então falou:
— Acho que vai chover mais tarde. E quando chove a estrada esburacada fica muito perigosa. Não sei se seria uma boa ideia você sair de carro hoje.
— É, tem razão.
Meu Deus, estávamos falando tanta bobagem. Parecíamos dois vizinhos presos em um elevador. E talvez Leon tenha percebido a mesma coisa porque um sorriso pequeno apareceu em seus lábios. Não exatamente de humor, mas de tristeza.
— Nós somos péssimos nisso.
— Em quê?
— Fingir que está tudo normal.

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