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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 44

ADRIANO

Eu havia acabado de almoçar sozinho na mesa que ficava na varanda. O almoço tinha sido silencioso e monótono naquele dia carregado de preocupações. Mastiguei sem prestar atenção no gosto da comida, com a cabeça longe, ocupada por pensamentos que eu fingia não ter. O sol do meio-dia batia forte no terreiro, fazendo o ar vibrar, e o calor subia da terra como um aviso constante de que o dia não daria trégua.

Levantei-me devagar, com aquele peso conhecido no corpo — não era ressaca daquela vez, era cansaço de alma mesmo. Fiquei em pé na varanda e deixei o olhar correr pela frente da casa, pelo portão, pelo caminho de terra que cortava a fazenda. Tudo parecia igual.

Foi então que ouvi o barulho de um motor.

No começo, não dei muita atenção. Carros iam e vinham o tempo todo. Mas o som se aproximava rápido demais, e havia algo estranho na maneira como o SUV surgiu no terreiro, levantando poeira em excesso, freando de forma brusca. Endireitei-me e aguardei.

A porta do carro se abriu de uma vez. Era Domingos, um dos empregados da fazenda — reconheci de imediato. Mas o que fez o mundo parecer sair do eixo não foi ele. Foi quem ele trazia nos braços.

Por um segundo, eu não acreditei no que vi: Marja estava nos braços de Domingos completamente desfalecida, o corpo mole, a cabeça pendendo para o lado, os cabelos grudados no rosto suado. A camiseta clara estava manchada de poeira e terra. Havia algo errado demais naquela imagem para que fosse apenas um mal-estar qualquer.

— Que diabos é isso? — minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia, enquanto descia os degraus quase correndo.

O homem avançou em minha direção.

— Patrão… eu… eu tava passando lá pro lado seco da fazenda — começou ele, a voz trêmula, ofegante. — Aí vi a moça de longe. Ela tava de pé, em cima de umas pedras… de repente… caiu. Tombou no chão, assim, sem mais nem menos.

Meu estômago se contraiu. Domingos prosseguiu:

— Eu fui até lá na hora. Quando cheguei perto, vi que tinha coisa errada. Ela já tava desacordada… — ele engoliu em seco. — Foi aí que vi a mordida no calcanhar. Cascavel, patrão.

Cascavel. Meu olhar desceu automaticamente para a perna de Marja. O empregado afastou um pouco o corpo para que eu visse melhor. Havia uma marca inchada, avermelhada, com dois pontos escuros bem definidos no calcanhar.

— A cobra ainda tava lá — continuou ele, rápido, como se precisasse justificar cada ação. — Enrolada perto das pedras. Eu matei. Não dava pra arriscar.

Concordei, os olhos ainda presos nela. O rosto de Marja estava pálido, os lábios entreabertos, a respiração curta, quase imperceptível.

— Eu fiz o que deu, patrão — ele disse, quase suplicante. — Chupei a ferida pra tentar tirar o veneno… amarrei a perna mais acima com um pano. Usei minha camisa mesmo.

Capítulo- 44 1

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