Eu não queria ver Adriano naquele dia. Esse era o objetivo quando peguei a chave do SUV e saí. Mas antes pedi a Benedita que ficasse de olho em Cecilia que estava no quarto brincando. Ela era minha substituta sempre que eu precisava ficar longe.
Passei pela sala e olhei para dentro da cozinha. Não havia ninguém. Entrei no carro e girei a chave. Saí devagar da área próxima ao casarão e segui pela estrada de terra que cortava a fazenda. No começo, reconhecia tudo: os campos verdes, o gado ao longe, as cercas de madeira. Era o caminho de sempre, o caminho seguro
Continuei dirigindo.
Passei por uma porteira que quase nunca era usada, depois por outra estrada ainda mais estreita. A paisagem começou a mudar lentamente, como se a fazenda tivesse camadas que eu nunca tinha me permitido explorar. O verde foi rareando, dando lugar a tons mais amarelados e secos. As árvores ficaram baixas, retorcidas e o sol parecia mais próximo ali, mais cruel.
Desliguei o carro quando encontrei um ponto onde a estrada simplesmente terminava em terra batida e pedras espalhadas. Não havia cercas, nem sinal de passagem frequente. Apenas um espaço amplo, seco e silencioso.
Desci do SUV e fui atingida pelo calor de forma direta, sem piedade. O sol queimava a pele, e o ar parecia parado, como se nem o vento tivesse coragem de circular ali. O chão era irregular, coberto por plantas rasteiras e resistentes,
Entre elas, enormes pedras surgiam como monumentos antigos, empilhadas de maneira quase natural, como se sempre tivessem estado ali.
Escolhi um amontoado de pedras mais alto e comecei a subir com cuidado. Apoiei as mãos, procurei equilíbrio, sentindo a aspereza da superfície sob os dedos.
Quando cheguei ao topo, fiquei em pé. Dali, a visão se abria de um jeito impressionante. À frente, uma serra se desenhava no horizonte, firme, azulada, quase irreal sob o céu claro demais.
Fiquei ali, parada, encarando aquela imensidão. O silêncio era tão profundo que parecia fazer barulho dentro de mim. Foi impossível não pensar em tudo o que eu vinha tentando evitar: Adriano, Antonella e eu, era um triângulo amoroso fantasmagórico, arrepiante e medonho.
Eu com a sensação constante de estar sempre no lugar errado, na hora errada, sentindo coisas que não devia sentir.
O que eu faria quando aquele trabalho terminasse? Quanto tempo mais eu ficaria naquela casa, vivendo entre silêncios e tensões que não me pertenciam?
Pensei no meu futuro.
O mundo ao redor pareceu perder definição. Senti um calor estranho se espalhar pela perna, seguido de uma dormência que subia rápido demais.
Tentei dar um passo para trás, mas minhas pernas não responderam como deveriam. Era como se não fossem mais minhas. Um enjoo repentino me tomou, fazendo o estômago se revirar. O suor brotou frio na testa, contrastando com o calor intenso do ambiente.
As bordas da minha visão começaram a escurecer. Tentei gritar, mas minha voz não saiu. Minha boca se abriu, mas nenhum som forte o suficiente escapou. Apenas um sopro fraco, perdido naquele espaço amplo e vazio. As forças começaram a me abandonar de vez. As pernas cederam, e senti o corpo tombar lentamente, como se eu estivesse caindo em câmera lenta.
O chão veio ao meu encontro. Caí de lado, sentindo o impacto surdo contra a terra quente. A poeira subiu ao redor do meu rosto, entrando nos olhos, na boca. Minha respiração estava curta, irregular. Cada inspiração parecia um esforço imenso. O som do meu próprio coração ecoava nos ouvidos, abafando todo o resto.
Minha visão ficou ainda mais turva. As imagens começaram a se dissolver: a serra virou uma mancha, o céu uma luz difusa. Senti o corpo ficar pesado, como se estivesse sendo puxado para dentro da terra. As pálpebras ficaram difíceis de manter abertas.
Então tudo escureceu.

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