Eu acordei. A primeira sensação não foi dor. Foi peso. Um peso estranho, espalhado pelo corpo inteiro.
Respirei e o ar entrou difícil, arranhando a garganta. O cheiro veio logo depois — álcool, remédio, algo limpo demais para ser confortável. Quando finalmente consegui olhar ao redor, a luz branca me cegou. Então, pisquei várias vezes, sentindo as pálpebras pesadas. Ouvi passos suaves e o tilintar discreto de metal. Uma silhueta se moveu ao meu lado.
— Calma — disse uma voz feminina, baixa, profissional. — Não tente se mexer ainda.
Virei o rosto com esforço. A enfermeira estava ali, de uniforme claro e mãos firmes ajustando algo num suporte alto. Segui o fio transparente com os olhos até o meu braço e percebi que estava no soro.
— Onde… — tentei perguntar, mas a voz saiu fraca, quase inexistente.
— Você está no hospital — respondeu a enfermeira, com um sorriso tranquilo.
As palavras ecoaram fortes dentro da minha cabeça. Tentei organizar os pensamentos, mas eles escorregavam, se misturavam, fugiam. A enfermeira percebeu meu esforço e apoiou a mão de leve no meu ombro.
— Devagar. Você ficou alguns dias inconsciente. É normal se sentir confusa.
Alguns dias. Meu coração acelerou. Olhei ao redor, buscando apoio em algo e então eu o vi. Adriano estava sentado ao lado da cama, ligeiramente inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas. Nossos olhos se encontraram. Ele sorriu para mim; um sorriso confortador.
A enfermeira terminou de ajustar o soro, conferiu o monitor ao meu lado e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. Fiquei sozinha com Adriano.
A garganta estava seca, a língua pesada. Ele percebeu e rapidamente pegou um copinho com água, trazendo até meus lábios. Bebi pequenos goles, sentindo a água descer como um alívio quase doloroso.
— O que aconteceu? — perguntei, finalmente.
Ele não respondeu de imediato. Passou a mão pelo rosto, um gesto cansado, e depois me olhou com atenção.
— Você foi mordida por uma cascavel — disse. — Lá na fazenda. Numa área mais seca. Não se lembra?
A palavra cascavel fez algo se acender dentro da minha memória, como uma lâmpada fraca piscando. O calor. As pedras. A serra ao longe. O vento no rosto. E então…
Adriano me contou rapidamente como havia sido tudo desde que Domingos, o empregado da fazenda, havia me encontrado desmaiada no chão. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo cada palavra.
— Você ficou desacordada por três dias— Adriano falou.
Abri os olhos de novo, assustada.
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