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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 46

Eu acordei. A primeira sensação não foi dor. Foi peso. Um peso estranho, espalhado pelo corpo inteiro.

Respirei e o ar entrou difícil, arranhando a garganta. O cheiro veio logo depois — álcool, remédio, algo limpo demais para ser confortável. Quando finalmente consegui olhar ao redor, a luz branca me cegou. Então, pisquei várias vezes, sentindo as pálpebras pesadas. Ouvi passos suaves e o tilintar discreto de metal. Uma silhueta se moveu ao meu lado.

— Calma — disse uma voz feminina, baixa, profissional. — Não tente se mexer ainda.

Virei o rosto com esforço. A enfermeira estava ali, de uniforme claro e mãos firmes ajustando algo num suporte alto. Segui o fio transparente com os olhos até o meu braço e percebi que estava no soro.

— Onde… — tentei perguntar, mas a voz saiu fraca, quase inexistente.

— Você está no hospital — respondeu a enfermeira, com um sorriso tranquilo.

As palavras ecoaram fortes dentro da minha cabeça. Tentei organizar os pensamentos, mas eles escorregavam, se misturavam, fugiam. A enfermeira percebeu meu esforço e apoiou a mão de leve no meu ombro.

— Devagar. Você ficou alguns dias inconsciente. É normal se sentir confusa.

Alguns dias. Meu coração acelerou. Olhei ao redor, buscando apoio em algo e então eu o vi. Adriano estava sentado ao lado da cama, ligeiramente inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas. Nossos olhos se encontraram. Ele sorriu para mim; um sorriso confortador.

A enfermeira terminou de ajustar o soro, conferiu o monitor ao meu lado e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado. Fiquei sozinha com Adriano.

A garganta estava seca, a língua pesada. Ele percebeu e rapidamente pegou um copinho com água, trazendo até meus lábios. Bebi pequenos goles, sentindo a água descer como um alívio quase doloroso.

— O que aconteceu? — perguntei, finalmente.

Ele não respondeu de imediato. Passou a mão pelo rosto, um gesto cansado, e depois me olhou com atenção.

— Você foi mordida por uma cascavel — disse. — Lá na fazenda. Numa área mais seca. Não se lembra?

A palavra cascavel fez algo se acender dentro da minha memória, como uma lâmpada fraca piscando. O calor. As pedras. A serra ao longe. O vento no rosto. E então…

Adriano me contou rapidamente como havia sido tudo desde que Domingos, o empregado da fazenda, havia me encontrado desmaiada no chão. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo cada palavra.

— Você ficou desacordada por três dias— Adriano falou.

Abri os olhos de novo, assustada.

Ele não respondeu. Apenas ficou ali, ao meu lado, como se aquela fosse exatamente a posição que precisava ocupar no mundo naquele momento.

O cansaço voltou a me envolver, pesado como um cobertor molhado. As pálpebras começaram a fechar sozinhas.

— Adriano… — chamei, antes que o sono me levasse de vez.

— Oi.

— Você… — hesitei. — Você vai me avisar se Cecília precisar de mim?

— Eu prometo.

Aquilo bastou.

Fechei os olhos, sentindo o corpo afundar no colchão, o soro pingando lento, constante. Antes de adormecer novamente, pensei em como tudo poderia ter terminado de outra forma. Pensei na serra ao longe, nas pedras, no vento. Pensei em Cecília, nos olhos dela me procurando.

E pensei em Adriano, ali ao meu lado, enquanto eu voltava, aos poucos, para a vida.

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