Eu não sabia dizer quanto tempo havia passado. Dormia. Acordava. Voltava a dormir. Às vezes tinha a sensação de ter sonhado com vozes, passos, com o som distante de alguém chamando meu nome. Outras vezes, tudo era apenas branco, silêncio e um peso doce que me puxava de volta para o fundo.
Quando acordei de novo, foi diferente. A consciência veio mais inteira, ainda frágil, mas presente. O braço ligado ao soro estava gelado, o outro repousava sobre o lençol fino. Respirei devagar, sentindo o ar entrar melhor do que antes.
Adriano ainda estava lá.
Ele permanecia sentado na mesma cadeira ao lado da cama, como se não tivesse se movido desde a última vez que abri os olhos. A postura era contida, rígida, mas havia um abandono silencioso nos ombros, uma entrega cansada. A barba por fazer lhe dava um ar mais humano, menos distante do homem que eu conhecia na fazenda. Ele olhava para mim com atenção, como se estivesse vigiando cada respiração.
Quando percebeu que eu estava acordada, levantou-se imediatamente.
— Ei… — disse, baixo. — Está tudo bem?
Assenti com um movimento mínimo de cabeça. A garganta estava seca, mas menos ardida do que antes.
— Me sinto um pouco cansada — respondi, com honestidade.
— A médica disse que é normal. Seu corpo ainda está eliminando o que precisa. — Fez uma pausa. — Mas você parece melhor.
Naquele momento uma funcionária do hospital entrou empurrando um carrinho metálico. O cheiro da comida chegou forte. Ela sorriu para mim e começou a organizar a bandeja.
— Trouxe a refeição — disse. — Sopa leve. Vai se sentir melhor.
Ela ajustou a mesinha sobre a cama, colocou a bandeja com cuidado.
— Qualquer coisa, é só chamar — disse, antes de sair, fechando a porta atrás de si.
O quarto voltou ao silêncio, quebrado apenas pelo bip constante do monitor.
Olhei para a bandeja. A sopa soltava um vapor leve. Meu estômago se revirou porque comer exigia uma energia que eu não tinha naquele momento.
— Você precisa comer — Adriano disse, como se tivesse lido meus pensamentos.
— Eu… — comecei, mas parei. A simples ideia de segurar a colher parecia um desafio. — Talvez depois.
Ele puxou a cadeira um pouco mais para perto da cama e voltou a se sentar. Em seguida pegou a colher e testou a temperatura da sopa com cuidado. Quando percebi o que ele estava prestes a fazer, senti o rosto esquentar.
— Adriano… — falei, constrangida. — Não precisa.



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