Adriano pousou os talheres com calma e perguntou:
— E então, como você foi parar na fazenda?
A pergunta pairou entre nós, pesada e inevitável. Olhei para o mar, para a linha escura do horizonte, tentando organizar pensamentos que eu raramente colocava em palavras.
— Não foi uma coisa planejada.
Ele não disse nada. Apenas esperou.
— Minha mãe morreu há pouco tempo — continuei. — Ela era tudo o que eu tinha. Meu apoio, minha amiga, minha segurança.
A voz saiu firme no início, mas aos poucos foi ficando mais frágil.
— Nós duas sempre fomos muito próximas. — Sorri, triste. — Ela me criou sozinha durante muito tempo. Trabalhava demais, mas nunca me deixou faltar o essencial.
Adriano continuava imóvel, atento. O jantar já não importava.
— Quando ela morreu, eu fiquei… vazia. Sem chão.
Engoli em seco antes de continuar.
— Eu sempre tive medo de ficar sozinha com o meu padrasto.
Adriano franziu levemente o rosto, mas não interrompeu.
— Horas depois de eu ter enterrado minha mãe, ele tentou… — minha voz falhou — …me estuprar.
O silêncio que se seguiu foi denso. Adriano ficou completamente imóvel. Vi sua mão se fechar lentamente sobre a mesa.
— Eu consegui sair de casa — continuei sentindo os olhos arderem — …fugi praticamente com a roupa do corpo e uma sacola com objetos pessoais. Não tinha para onde ir. Peguei o primeiro ônibus e vim parar aqui no povoado. Foi quando conheci Mundico na lanchonete e ele me levou até a fazenda.
Por um momento, pensei que Adriano fosse dizer alguma coisa. Mas ele apenas se levantou, deu a volta na mesa e ficou ao meu lado, apoiando as mãos no encosto da cadeira. Não me tocou. Apenas ficou ali.
— Eu precisava de um lugar onde ninguém soubesse da minha história — continuei. — Onde eu pudesse respirar sem medo. A fazenda… — olhei para ele — …acabou sendo isso.
Quando terminei, percebi que estava chorando em silêncio. Lágrimas escorriam sem drama, sem soluços. Apenas caíam.

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