Acordei com a sensação de que ainda estava sonhando. Por alguns segundos permaneci imóvel, os olhos fechados, respirando devagar. O colchão era muito macio e o lençol tinha um cheiro que eu já começava a associar a Adriano. Quando estiquei a mão ao lado do meu corpo, vi que estava vazio.
Abri os olhos de repente, um susto breve atravessando o peito. Sentei-me na cama, o lençol escorrendo até a minha cintura, e foi então que ouvi. Um ruído baixo, metálico, seguido do som inconfundível de uma xícara sendo pousada sobre a mesa. E, logo depois, o cheiro de café.
Levantei-me devagar, ainda sentindo o corpo levemente dolorido, não de um jeito ruim, mas como uma lembrança boa da noite anterior. Vesti a camisa dele que estava jogada sobre a cadeira — grande demais para mim — e segui pelo corredor, com o sol da manhã entrando em faixas claras pelo chão.
Quando cheguei à cozinha, Adriano estava de costas, terminando de arrumar a mesa. O cabelo ainda um pouco bagunçado, a camisa de algodão clara arregaçada nos braços. Havia algo nele que parecia mais leve, menos tenso, como se a noite tivesse suavizado algumas arestas invisíveis.
— Bom dia — eu disse, a voz ainda rouca de sono.
Ele se virou, surpreso por um segundo, e depois sorriu. Um sorriso pequeno, discreto, mas real. Aproximou-se sem dizer nada e me beijou. Um beijo calmo, sem urgência, como se dissesse estamos aqui. Respondi do mesmo jeito, sentindo um conforto estranho, quase doméstico, que me aqueceu por dentro.
Tomamos café em silêncio. Mas não era um silêncio desconfortável, nem cheio de coisas não ditas. Era um silêncio macio, gostoso.
Havia o barulho do mar ao fundo, o tilintar das xícaras, o som distante de uma gaivota. Eu observava os gestos dele — o jeito como mexia o açúcar, como bebia o café em goles pequenos — e pensava em como aquela cena simples tinha algo de extraordinário.
Depois, ele pegou as chaves.
— Vamos caminhar? — perguntou.
Descemos até a praia. A areia ainda estava fresca, marcada apenas por algumas pegadas solitárias. Caminhamos lado a lado, observando o mar calmo e o vento que trazia aquele cheiro salgado e único.
Falamos de Cecília. Adriano contou que ligara cedo para a fazenda, que estava tudo bem, que Quitéria havia dito que ela tinha acordado tranquila, mas que apontava para o meu quarto, sentindo minha falta. Falamos um pouco da fazenda, de coisas práticas, quase banais. O sol foi subindo, o calor foi aumentando. Voltamos para a casa de vidro perto do meio-dia.
Almoçamos juntos algo simples que ele preparou sem cerimônia. Em certo momento, rimos de uma bobagem qualquer — nem lembro exatamente do quê — e o riso veio fácil, solto, como se tivéssemos nos conhecido há mais tempo do que realmente conhecíamos.



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