Aquele domingo seria o último dia em que eu e Adriano ficaríamos na casa de praia. No dia seguinte voltaríamos para a fazenda. Estávamos terminando o café da manhã quando surgiu um carro que estacionou em frente à varanda.
Um homem branco de meia idade, de passos firmes e chapéu claro, desceu. Adriano se adiantou e foi até a escada. O homem era João Sales, também fazendeiro. Me cumprimentou rapidamente, mas logo se dirigiu a Adriano e eu percebi pelo modo de conversar que Adriano e ele eram velhos conhecidos.
João não se demorou. Explicou que havia uma reunião da Associação de Fazendeiros acontecendo na capital, algo que Adriano não podia faltar, pois havia mais de três anos que ele não comparecia. Adriano me olhou por um instante, tocou de leve no meu braço e disse num tom baixo:
— Volto o mais rápido que puder.
Eles partiram, e o silêncio ocupou a casa de vidro.
Fiquei ali parada por alguns minutos, ouvindo apenas o som do mar e o ranger distante de uma porta que o vento empurrava. Depois, coloquei um maiô, peguei uma canga e saí para caminhar na praia. A areia estava quente, mas suportável. O sol já não era tão agressivo quanto nos dias anteriores. Caminhei sem pressa, deixando os pés afundarem, como se quisesse que a terra me segurasse.
Mais adiante, encontrei algumas rochas grandes, irregulares, moldadas pelo tempo. Sentei-me ali, abraçando os joelhos, e deixei que as ondas mais fortes respingassem água salgada na minha pele. O cheiro do mar me invadiu por dentro, despertando memórias que não eram exatamente lembranças, mas sensações antigas: liberdade, solidão, recomeço.
Voltei para casa perto do meio-dia. Preparei algo rápido para almoçar, comi sozinha à mesa onde, na noite anterior, tínhamos dividido risadas descontraídas e silêncios confortáveis. Liguei a televisão e escolhi um filme qualquer, mais para preencher o tempo do que por interesse real.
Pausei o filme, peguei o celular e digitei para Adriano:
— Como está indo na reunião?
No mesmo instante ele digitou de volta:
— Uma chatice.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO