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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 62

A casa acordou diferente naquela manhã. Eu ainda estava no quarto de Cecília, ajudando-a a vestir um vestido leve de algodão, quando ouvi o barulho de um carro chegando. Não precisei olhar pela janela para saber quem era. Catarina sempre chegava assim: trazendo movimento, risadas, vozes altas e uma energia que parecia ocupar todos os cômodos ao mesmo tempo.

Quitéria passou apressada pelo corredor, enxugando as mãos no avental, e gritou da escada que Catarina tinha chegado. Mundico apareceu logo atrás, comentando qualquer coisa sobre malas no porta-malas e sobre o calor que prometia castigar o dia inteiro. A fazenda, que nos últimos dias parecia suspensa num silêncio estranho, acordava em sobressaltos.

Deixei Cecília no quarto e desci. Assim que atravessei a porta da frente, vi Catarina no alpendre, de óculos escuros, cabelo preso de qualquer jeito, rindo alto enquanto abraçava Quitéria. O riso dela sempre me pareceu um desafio ao mundo, como se dissesse que nada era grande demais para ser enfrentado.

Quando me viu, abriu os braços.

— Marja! — gritou, vindo na minha direção. — Bom te ver!

O abraço dela foi apertado, caloroso.

Foi então que lembrei de Jana.

— Catarina, quero que você conheça uma amiga minha — disse, puxando-a levemente pelo braço em direção à sala.

Jana estava perto da janela, olhando a movimentação do lado de fora com aquele jeito atento que sempre teve, como se estivesse catalogando o mundo antes de decidir o que sentir. Quando Catarina entrou, as duas se estudaram por um segundo — mulheres reconhecendo mulheres — e depois sorriram quase ao mesmo tempo.

Falei me dirigindo à Jana:

— Catarina é irmã de Adriano.

— Prazer — disse Jana.

— O prazer é meu — respondeu Catarina, com um brilho curioso no olhar. — Você escolheu um ótimo momento para estar conosco.

—Estou curiosa pela festa — Jana falou

— E vocês são amigas desde quando? — Catarina perguntou.

— Desde a adolescência.

— Sinto falta disso — Catarina comentou. — Tenho muitas amigas, mas não tenho “a melhor amiga”, aquela que a gente conta até os pensamentos mais tenebrosos.

— Só que vou ficar sem minha melhor amiga — falei.

— Por quê? — Catarina parou, de repente.

— Porque Jana vai embora para o Texas. Ganhou uma bolsa de estudos. Engenharia Química.

— Mas isso é maravilhoso! Quem sabe lá você conhece um daqueles cowboys texanos? — Catarina reagiu com entusiasmo imediato

— Quem sabe, né, Jana? — concordei.

Jana deu uma gargalhada que eu conhecia bem. Com certeza ela pegaria algum cowboy texano, mas sem compromisso. Esse era o lema dela.

— Isso merece uma comemoração. Que tal uma cerveja? — Catarina falou sorrindo.

Concordamos e de repente estávamos na sala as três bebendo cerveja, como se tivéssemos sido amigas a vida toda.

— À Jana! — Catarina falou.

— À Jana — repeti.

— Às novas amizades — Jana falou, sorrindo para Catarina.

A casa virou um vai-e-vem constante. O cheiro de café se misturando ao de bolo assando. E em meio aquele burburinho, alguém ligou o rádio na cozinha, colocando uma música animada que ecoava pelos corredores.

Diante de todo aquele movimento, percebi algo que me incomodou: Adriano não estava em lugar nenhum. No início, não estranhei. Ele costumava desaparecer quando a casa ficava cheia demais. Mas à medida que a manhã avançava, a ausência dele foi se tornando pesada. Não ouvi a voz dele, não vi seu carro, não senti aquela presença silenciosa que, mesmo distante, sempre parecia ocupar algum espaço invisível.

Perguntei casualmente a Quitéria, sobre ele.

— Saiu cedo — respondeu, sem olhar para mim. — Foi ver o prefeito.

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