Adriano me encarou por um tempo longo demais. Entrei na cozinha ainda sentindo o peso da surpresa, como se tivesse sido pega em flagrante por algo que eu mesma não sabia explicar.
Eu estava arrumada demais para quem tinha decidido ficar em casa: o vestido curto colando no meu corpo, as botas batendo forte no chão, o cabelo solto caindo sobre os ombros, a maquiagem intacta.
Adriano estava ali. De verdade. Não como uma lembrança insistente ou uma ausência barulhenta, mas ali, ocupando espaço, apoiado na bancada como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo.
— Por que você ainda está aqui? — ele perguntou.
Demorei um segundo a responder. Cruzei os braços, mais para me proteger do que por qualquer outra razão.
— Cecília não quis ir. Ela já está dormindo.
Ele me observou por alguns instantes. Desceu o olhar para as minhas roupas, me estudando, me avaliando. Depois disse, com simplicidade:
— Benedita ainda está na casa.
Antes que eu pudesse reagir, ele se virou e caminhou até a escada.
— Benedita! — chamou, com a voz firme que ecoava fácil pelos corredores.
Voltou para a cozinha enquanto eu permanecia parada, o coração acelerado, uma sensação estranha se formando no estômago.
Benedita apareceu logo em seguida, ajeitando o vestido.
— Pois não, seu Adriano?
— Cecília já dormiu. Preciso que você fique de olho nela esta noite.
Benedita concordou sem fazer perguntas.
— Pode deixar.
Foi então que Adriano se virou para mim. Sem dizer nada, segurou meu braço — firme, mas não rude — e me conduziu em direção à porta. O gesto foi tão inesperado que eu apenas acompanhei, sentindo o calor da mão dele atravessar o tecido fino do vestido.
— Se já está pronta, então vamos. — disse apenas. Não como uma ordem, mas como uma constatação.


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