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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 67

Naquele último dia eu fui à festa com Jana como quem tenta aproveitar cada fresta de normalidade que ainda lhe resta. Havia a sensação de despedida no ar. Depois da festa, Jana iria embora, isso eu já sabia. Mas parecia que meu coração sentia que algo mais iria acontecer. Porém, não me deixei vencer pelo medo e fui, porque dentro de mim havia outra metade: aquela que queria se divertir, viver.

Vesti-me com cuidado, calcei as botas, respirei fundo e fui. Segui ao lado de Jana em direção ao barulho, às luzes, às pessoas.

Sentamos em um banco de madeira de frente para a arena da vaquejada. O sol já não castigava como nos outros dias; estava mais baixo, dourando tudo, como se tentasse ser gentil naquela despedida. Os vaqueiros entravam em duplas, chapéus firmes, corpos inclinados para a frente, atentos a cada movimento. Os bois disparavam, levantando poeira, e os cavalos corriam atrás deles com uma força que fazia o chão tremer. Era bonito e brutal ao mesmo tempo.

Eu me deixei levar pelo clima. Torci quando um boi quase escapou, bati palmas quando a derrubada foi perfeita, ri quando Jana comentou algo engraçado sobre um vaqueiro que quase caiu do cavalo. Por alguns minutos, eu realmente estive ali, inteira, presente, sem Adriano, sem a fazenda, sem memórias pesadas demais. Apenas o agora.

Quando a vaquejada terminou, eu e Jana saímos dali como duas adolescentes. Caminhamos entre as barracas, rimos de coisas bobas, comentamos as roupas das pessoas, dançamos sozinhas no meio da multidão sem nos importar com olhares.

A fome chegou de repente. Compramos cachorro-quente em uma barraca próxima. O pão estava quente demais para segurar, a salsicha quase pulando para fora, o molho escorrendo pelos lados. Sentamos em um meio-fio, rindo da bagunça, limpando os dedos em guardanapos finos demais para a tarefa.

Foi então que um homem surgiu ao lado de Jana, sorrindo, confiante. Antes mesmo de ela reagir, eu o reconheci. Era o mesmo da noite anterior, com quem ela havia dançado enquanto eu observava de longe. Jana levantou os olhos e abriu um sorriso imediato, espontâneo, desses que não se fingem.

— Você de novo — ela disse, em tom leve.

— Eu disse que ia te achar — ele respondeu.

Trocaram algumas palavras rápidas. Jana me apresentou seu novo amigo, mas a música e o barulho não me deixaram entender nada do que ele falou, nem seu nome, nem o que disse depois.

Ele aparentava estar na faixa de quase trinta anos. Tinha cabelos grisalhos para uma pessoa tão jovem e apesar de se mostrar simpático o tempo todo, alguma coisa nele não me agradou. Mas talvez fosse só esquisitice minha. Jana era sempre mais simpática e receptiva e sabia melhor do que eu como fazer amigos.

Jana se levantou, ajeitou a roupa, lançou-me um olhar breve, quase pedindo permissão. Eu sorri e fiz um gesto com a cabeça. Vai. Vive. Ela se afastou com ele alguns metros, ficando perto de uma barraca de jogos. Não estavam isolados, mas também não estavam comigo. Conversavam, riam. Jana parecia à vontade.

Fiquei sozinha.

Terminei meu cachorro-quente devagar, observando as pessoas passarem, as crianças correndo com balões, os casais de mãos dadas. Havia música ao fundo, anúncios nos alto-falantes, um cheiro misturado de comida, poeira e suor. A festa estava viva, pulsando, e eu queria me divertir, queria sentir tudo: o brilho, as músicas, as sensações...

Levantei-me. Estar parada começou a me incomodar. Olhei ao redor procurando algo para fazer, um destino pequeno que não exigisse pensar demais. Foi quando me lembrei da barraca de refrigerante atrás do palco, um pouco mais afastada, menos cheia.

Comecei a caminhar naquela direção, contornando a lateral do palco. Ali o som da música chegava abafado, distorcido. Havia caixas de som empilhadas, fios espalhados pelo chão, estruturas metálicas sustentando refletores. O movimento de pessoas diminuía conforme eu avançava.

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Capítulo-67 2

Capítulo-67 3

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